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«SANTISSIMA TRINDADE» Uma Interpretação Iconográfica
Capitulo III - A teologia trinitaria fluindo do ícone de Rublev
Eis que Eles estão num diálogo permanente; a semelhança entre Eles é clara e proposital para expressar a consubstancialidade. Não podemos distinguir entre Eles, a não ser por um único gesto que diferencia um do outro, a inclinação dos corpos e as cores de suas roupas. Houve uma dúvida sobre a identidade do anjo que está sentado no centro: perguntavam alguns especialistas se representava o Pai ou o Filho. Não entraremos no mérito da discussão, mas seguiremos a opinião do teólogo Paul Evdokimov que se baseia em provas que diz: “o anjo da direita não apresenta problema algum; é o Espírito Santo”. A dúvida afeta o anjo do centro é ele o Pai ou o Filho? “O anjo da esquerda tem o nome de Py, que significa o Filho, o anjo da direita, o de Puiltos: o Espírito Santo; e o anjo do meio o de Ai: representa Deus Pai” [11]. Cada um dos anjos carrega um báculo que representa o poder Uno, cada um apontando ao símbolo que o representa. O báculo do Pai aponta para a árvore da vida que carrega o fruto da vida eterna: nas matinas de Natal recita-se “o anjo que carrega a espada ardente se afastou da árvore da vida por que seus frutos nos serão dados através da comunhão”[12]. A árvore da vida não será violada como fez Adão, por isso, Deus o afastou dela, e viu por bem não nos dar seus frutos a não ser através da Cruz. O báculo do Filho, que está representado pelo anjo sentado à esquerda no quadro, aponta para o altar, para a Igreja, o seu corpo; porém o báculo do Espírito Santo, que está inclinado um pouco para a direita e está apontando para as rochas pintadas numa forma de escadas, é a inspiração que se declina na montanha, montanha de Sião, montanha de Tabor, e outros. É a elevação, o espanto, a supremacia profética, o andar superior, a sala de pentecostes. O espantoso nesse quadro é que ele contém uma expressão de estabilidade predominante e, mesmo assim, carrega com ele o seu conteúdo de movimento que se mescla num movimento circular coordenado que se inicia no pé direito do anjo que está à direita e que toca a escada com uma excepcional delicadeza como se estivesse isento do peso da matéria, passando para o inclinar de sua cabeça que atrai com ela a rocha e a árvore, querendo com isso dizer que o mundo inteiro é atraído em direção do Pai pelo Espírito, o mundo é chamado para se voltar ao Deus Pai. Conduz com ela a inclinação da cabeça do anjo central pairando finalmente na posição vertical do anjo esquerdo como se estivesse num recipiente, e o que acrescenta um certo esplendor na visão é justamente a visão contrária que é o desaparecimento da qualidade que vai além da aparência (característica de todo ícone). O movimento confirma ainda na expressão do olhar, pois nos ícones, normalmente o olhar se depara com o expectador, e as faces são pintadas como se estivessem se defrontando com quem as admira, mas aqui onde os olhares estão numa corrente circular, os rostos são pintados meio que de perfil; as roupas largas cooperam no movimento participando na demonstração da beleza dos corpos e dos traços dos rostos e suas minuciosidades. As formas arquitetônicas que foram adotadas pelo iconógrafo como base para o seu quadro são: o retângulo, o triângulo, o círculo e a cruz. Estas formas foram introduzidas na montagem do quadro e devemos descobrí-las. No século XV acreditava-se que a terra era plana, por isso o modo retangular debaixo da mesa que a representa; a mesa também é retangular representando o símbolo dos quatro pontos cardeais da terra. Na era dos Santos Padres a original simbologia era os quatro evangelistas que divulgavam a universalidade do Verbo, por ser esta a única divulgação através dos quatro Evangelhos; portanto a terra atrai as mãos dos anjos (ponto do amor Divino). Entendemos da forma retangular que o mundo está fora do circulo imaginário que envolve a Trindade, mas está incluso no triangulo da comunhão do Pai. Ao unirmos as pontas da mesa com a cabeça do anjo que está no centro com uma reta imaginária veremos que os anjos foram desenhados em um triângulo de simetria e pontos perfeitos, querendo significar a consubstancialidade, unidade na mesma essência das pessoas da Trindade, em sua união e individualidade, particularidade ou originalidade que é encontrada na visão do profeta Isaías que chama o Senhor que está sentado no trono de Senhor dos Exércitos (Is 6,5), enquanto João o Evangelista diz que Isaías viu a Glória do Filho (Cf. Jo 12,41); mas São Paulo diz que quem dialoga com Isaías era o Espírito Santo (Cf. At 28,25). Isso tudo se explica ao entender que quem Isaías viu era a glória de Deus Uno e Trino de hipóstases, como a expressão “Ide portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19); não disse ide e batizai nos nomes do Pai , do Filho e do Espírito Santo, como três deuses diferentes, mas usou o termo “em nome”, com objetivo de mostrar um único nome e única força de Deus Único, em três Pessoas (Hipóstases) de natureza divina única. Se desenharmos uma linha acompanhando o extremo dos anjos, os encontraremos num círculo perfeito sendo o seu ponto central a mão do anjo central que representa a missão do Pai o Criador ou o “Παυτοκρατωρ” Pantokrator” [13]. A cruz abraça o ícone, pois ela é o centro invisível no qual a pintura fora baseada: o arco iluminado em cima da cabeça do Pai, o cálice e o símbolo da terra, tudo isso está na linha vertical que divide a pintura em duas partes iguais. A linha horizontal une os dois arcos dos anjos que se encontram com a linha vertical, criando uma cruz perfeita, que se situa no meio do coração do amor Trinitário, no peito do lado do coração do anjo do centro. Porém nem tudo está centralizado no meio desse esquadro equilibrado e arquitetado. Há alguns motivos que foram deixados propositadamente fora do esquadro, como o cálice e a mão do Pai, que estão um pouco fora do centro inclinando-se para baixo, tendo sido estudado para que possa realizar a sua missão que é direcionada ao expectador representando a Epíclese na Santa Liturgia que é o ponto de magnificência. Há uma atitude de veneração e magnanimidade na forma do Pai se assentar, o manto que vem caindo pelo seu ombro esquerdo como cataratas que vão despencando e chamando a atenção à estabilidade da mão direita que ao mesmo tempo se movimenta abençoando o cálice, num movimento suntuoso e ininterrupto. O mistério de Deus pode ter essa contradição, pois Ele é a fonte de toda graça e por isso é silêncio não descoberto a não ser pela comunhão, incompreensível, a não ser através de Jesus Cristo, como está em São João: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida; Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jó 14,6;6,44). Entretanto, o Filho é a representação, o anúncio do Reino, a revelação de Deus e a Palavra, pois é o Verbo, que está numa posição de alerta, que não se apegou e se destituiu de sua identidade divina para se encarnar como no mundo por causa do homem. A mão do Espírito Santo está direcionada para baixo abençoando o mundo, acolhendo-o e protegendo-o como se fosse asas da pomba que carrega o carinho maternal. O movimento que flui do Espírito Santo indica que no seu sopro o Pai se locomove em direção ao Filho e o Filho recebe o Pai, diz São João Damasceno: “No Espírito Santo reconhecemos o Filho e no Filho admiramos o Pai” [14]. O Pai inclina a cabeça em direção ao Filho, num inclinar repleto de tristeza indescritível, porque vê n’Ele o cordeiro sacrificado. O Filho reflete, medita e expressa sua opinião, consentimento e adesão. As cores no Ícone de Rublev também têm expressão, ondulações e riquezas incomparáveis. Cada parte do quadro reproduz com esplendor a Luz radiante que explode de suas raízes misteriosas; a imagem central tem excesso nas cores: o vermelho escuro representando o amor Divino; o azul em excesso, chamado de o azul do Rublev, representa a realidade celestial, por isso está debaixo do manto do anjo da esquerda. A natureza humana de Cristo se manifesta na natureza divina. A seqüência das cores se transpõe combinando com a cor dourada brilhante fazendo do ícone uma magnífica obra artística que reproduz resumidamente a magia de Rublev, que induz a um sentimento profundo, porém não emocional, contendo delicadeza sem se degenerar, tendo suavidade mesclada com solidez, em linhas invisíveis que carregam consistência e densidade. Vemos as cores das roupas no ícone e aprendemos um pouco sobre o significado das cores iconográficas, que são praticamente uma tradição escolástica iconográfica. Mesmo para criar um ícone, um iconógrafo tem que respeitar a tradição para poder pintar um tópico; se ele não souber a significação de um detalhe, não deve tomar a iniciativa para removê-lo ou mudá-lo. Assim ele não omitira um elemento que poderia ser importante na interpretação da iconografia. A cor azul une o caráter em geral à divindade. É normalmente reservado ao Cristo e à Mãe de Deus. A contusão pálida nas roupas de santos indica a grande devoção à Mãe de Deus, e também a deificação, a união com Deus, a meta da vida Cristã. Cada um dos três anjos do ícone da Trindade tem uma peça do seu vestuário azul que expressa a sua divindade. A peça de vestuário azul no anjo do centro, demonstra que o mistério da encarnação é a grande teofania, a Manifestação de Deus; a divindade de Cristo é o mistério central da fé Cristã. A divindade dos dois outros anjos está escondida debaixo das outras vestimentas e bastante misteriosa; sendo que iremos descobrir isto na fé. A fé identifica o Cristo como o Filho de Deus, e está com Cristo aquele que conhece o Pai pela fé. O vermelho é o que representa o sangue de Cristo que deu todo o seu sangue para a vida do mundo; é também o dos mártires, ou a efusão da mente santificada no fogo de Pentecostes. Por exemplo: A Mãe de Deus é representada freqüentemente nos ícones vestida com um manto de cor vermelho escuro, quase dourado. Esse mesmo manto vermelho foi colocado sobre o ombro da hipóstase do lado esquerdo do quadro; “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra” (Lc 1,35). O manto da vestimenta de Maria é representação do Espírito Santo que a envolve. O amarelo é a cor de luz. Normalmente, são representadas as características dos ícones em um fundo neutro, amarelo. Alguns iconógrafos recuperam o fundo completamente de ouro, mas freqüentemente as pessoas põem ouro para a áurea, porque a cabeça é a parte mais luminosa da pessoa. Quando a pessoa falar de iluminação, compreensão, inteligência, recebe a fé e ao mesmo tempo a compreensão em seu coração. A cabeça é o elemento principal da pessoa; assim a cabeça da pessoa é cercada com ouro, que tem três reflexos em forma de cruz muito luminosos. O fundo de um ícone é de ouro ou de cor amarela, simboliza que a pessoa do ícone está iluminada. Da luz que é a resposta à morte. O tema da luz é muito presente em nossas liturgias e na cerimônia fúnebre. Diz-se: "Faça deslumbrar neles a luz divina sem fim"; quando rezamos no funeral essa oração, pedimos permissão para que nós também entremos na luz divina. O verde representa vida. O Espírito Santo no ícone da Trindade é representado numa hipóstase com o vestuário verde porque é o que vivifica. No ícone da ressurreição ou a descida ao inferno, Jesus vai à procura de Adão e Eva; Adão é revestido freqüentemente com verde; Adão o primeiro homem e a origem da raça humana. Jesus desce ao inferno para devolver a vida a quem era a origem da raça humana."O Adão deu a morte a esses que o buscam e o Cristo deu vida a esses que morreram antes dele "(1Cor 15,20-22). Voltemos às três pessoas do ícone. Elas têm a mesma face precisamente, uma façanha para o nível artístico. As faces são idênticas porque as três Pessoas da Trindade são idênticas na sua natureza; mas são diferentes em sua relação. Cada uma das Pessoas assume uma ação particular, mas em sua individualidade, as duas outras Pessoas estão presentes, porque a ação trinitária é realizada sempre a três. É ação triádica. Podemos dizer que no ato eterno da paternidade do Pai, as duas outras pessoas da Trindade já estão presentes. Segundo a teologia oriental, não há diferença existencial no tempo entre o Pai e o Filho que foi gerado dele e o Espírito que procede dele. Não há hierarquia entre as três pessoas, mas existe uma missão apropriada para cada um. Em nossa compreensão e em relação à criação, não podemos dizer que "o Pai é menos ou mais criador que as outras duas pessoas", ou que "o Filho é mais Salvador que os outros dois", ou que "o Espírito Santo é mais Santificador que os outros dois". Nós damos a cada um, papéis distintos, onde porém, todos são e estão ativos e presentes na mesma ação econômica trinitaria. O Deus de três hipóstases, único substancialmente e indivisível, que se apresentou no Novo Testamento é o mesmo Deus consubstancial e indivisível na essência que se apresentou no Antigo Testamento, mesmo que o Antigo Testamento não comente sobre o Mistério da Trindade, por motivos óbvios. Mas isso não impediu os patriarcas e os pais do Antigo Testamento de viverem mesmo sendo que sem consciência, o mistério da Santíssima Trindade. Esse conhecimento não é mental, físico ou material, mas é um conhecimento incorpore, que supera o da mente e a compreensão humana, por ter se realizado por intermédio do conhecimento do mistério e da glória da Trindade divina perante aqueles que foram preparados por intermédio da graça divina, para confirmar a personificadora Trindade é a divina graça e a ação na unidade como é relatado em São Paulo; “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de mistérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos” (1 Cor 12,4-6). Jesus Cristo, o Filho Unigênito do Pai, o seu Verbo encarnado, é a fonte do Novo Testamento como foi à base do Antigo Testamento antes de sua encarnação, pois toda manifestação da Santíssima Trindade e todo anúncio da Sua vontade se realizou através d’Ele; “Deus ninguém jamais o viu, o Filho é o único que está voltado para o seio do Pai, este o deu a conhecer” (Jo 1,18). O Espírito Santo, o Espírito do Pai, é encontrado no Novo Testamento, onde há todas as qualificações que distinguem as pessoas (Hipóstases), por outro lado, têm todas as características que determinam as obras ou ações de Deus, Consolador, Anunciador, Mentor, Paráclito. Qualificações estas que só podem ser dadas à terceira Pessoa da Trindade; como nos mostra o trecho de João que diz: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”. (Jo 14,26). Esta divindade também orienta, anuncia, profetiza, “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará coisas futuras” (Jo 16,14). Testemunhará em prol de tudo aquilo que foi dito e feito pelo Filho; “Quando vier o Paráclito que vos enviarei de junto do Pai, ele dará testemunho de mim” (Jo 15,26); Constitui Bispos todos aqueles que receberem o dom do Espírito Santo através da imposição das mãos por sucessão apostólica e colegiado, “Estais atentos a vós mesmos e a todo o rebanho: nele o Espírito Santo vos constituiu guardiães, para apascentardes a Igreja de Deus...” (At 20,28). Deus é amor na sua essência, e na essência Trinitária, então Ele é dedicação e sacrifício. O amor da humanidade é somente o reflexo do amor trinitário. Diz Evdokimov: “entre a existência e a inexistência não há fundamento existencial, a não ser o fundamento Trinitário, por ser o fundamento inabalável, que une entre a individualidade e a comunidade dando um significado final a tudo” [15]. A imagem do Pai “Uno e Trino solares” de resplendor, verdadeiro e absoluto, está diante de nós como principio único de toda a existência. A partir desse círculo de amor da essência trinitaria é dever da cristandade imitar esse amor. A Igreja é responsável em repetir na sua vivência a verdade divina; era exatamente isso que os Santos Padres da Igreja desejavam e repetidamente insistiam ao dizer que o ser humano é chamado a se tornar divino pela graça que lhe é dada por Deus. O Dogma diz: “três pessoas em uma só natureza ou uma só substância, três hipóstases semelhantes na substancialidade, numa união perfeita e separação perfeita; são unidas, não para se mesclarem, mas para se auto suportarem e se interligarem uma à outra. Cada Pessoa é identificada com as outras por ter sua relação destacável da outra e conter a substância Una e acolher as outras Pessoas num relacionamento e numa contemplação entre si” [16]. Na última Ceia, vemos Jesus citando várias vezes o Pai, o Filho e o Espírito Santo, lembrando sempre as três hipóstases juntas, mas de formas diferentes. “Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26), “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ...” (Mt 28,19). O Cristo Salvador enviou seus discípulos para a evangelização dos povos, ensinando a adoração das três pessoas da Trindade sem nenhum acréscimo; assim vemos que os apóstolos não só ensinaram mas também viveram o Mistério Trinitário conforme os ensinamentos do próprio Cristo Deus, sendo isso o auge e a essência da evangelização. Há um movimento de amor eterno que está personalizado na essência da Trindade. O homem retoma o paraíso perdido; isso quer dizer que entra nesse movimento e vive no coração de Deus. O Pai é fonte em abundância que transborda numa riqueza ilimitável, por isso não se esgota ao se dar de si mesmo; Deus é incontável, pois a divindade trinitária não é quantitativa. Por isso, a mente do ser humano, por ser limitada na compreensão, não consegue compreender a Trindade, mas só a vida espiritual nos permite entrar na magnanimidade do mistério. O três é um número exemplar, pois o numero um é isolado, o dois é divisível, porém o três é indivisível, é comunidade. O um e a quantidade se encontram e se concentram na Trindade, é disposição de cada hipóstase se encontrar nas outras, na Única Luz que intervém no oculto da profunda Trindade. Diz São Gregório Palamás: “o Espírito Santo é alegria da eternidade do Pai e do Filho, onde os três se contentam mutuamente” [17], isso é, a imagem da nossa Igreja terrena e a comunhão no amor recíproco, una na sua diversidade, e única para toda a humanidade na única natureza que está resumida em Jesus Cristo. “A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!” (2 Cor 13,14). No mistério Trinitário no qual Rublev escreve o seu ícone a Igreja crê não é o resultado de um pensamento humano nem uma crença que resultou de uma seita ou de um entendimento retrógrado e filosófico, mas é a essência da anunciação dos próprios apóstolos os quais viveram e ensinaram na experiência vivenciada da divinização; “O que vimos e ouvimos vô-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o Filho Jesus Cristo. E isto nós escrevemos para que a vossa alegria seja completa” (1Jo 1,3-4). Nos mistérios da Igreja primitiva o batismo era realizado desde os primeiros séculos “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” [18]; a forma de batizar com três imersões representava essa fé, e a cada imersão era lembrado o nome de uma das pessoas da divina Trindade. Outra forma de adoração a Deus era a forma mais conhecida que até hoje é cantada: “Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo”; a confissão antes do seu martírio também era uma forma muito usada. Entre muitas formas que chegaram até nós, que confessam a convicta fé na Santíssima Trindade citamos a de São Policarpo, Bispo de Esmirna, dedicada a Deus Pai, antes de ser queimado vivo: “Te Exalto por essa graça e por tudo que me fizeste, Te Glorifico e Te Adoro por intermédio do seu Celestial e Eterno Sacerdote Jesus Cristo, o Teu Único Filho que está junto de Ti e com o Espírito Santo, toda honra e adoração agora, sempre e pelos séculos dos séculos. Amém” [19]. Rublev preservou na sua obra iconográfica a manifestação dos Santos Padres da Igreja do primeiro século, sobre a fé da Santíssima Trindade, que foi preservada através dos escritos e ensinamentos. Entre muitas obras deixadas por eles temos a carta do São Clemente, o romano, para os Coríntios onde diz: “Não temos um Único Deus um Único Cristo e Um Único Espírito Santo que foi derramado sobre nós?” [20]; entre muitas citações sobre a Santíssima Trindade nas cartas de Santo Inácio de Antioquia lembramos “Tentem seguir os dogmas e os ensinamentos do Senhor e dos Apóstolos, para serem vitoriosos nas suas ações tanto no corpo e como no Espírito, na fé e no amor do Pai, no Filho e no Espírito Santo” [20]. Também chamados de defensores da fé, os Santos Padres viram que era necessário falar mais sobre o Mistério da Trindade para defenderem o Cristianismo e atacarem os heréticos. Referiram-se especialmente à Palavra divina e sua relação com a criação do mundo. Mas suas terminologias às vezes não eram muito especificas, por isso causaram a desunião e a má compreensão das classificações que poderiam através delas se expressar a respeito do Mistério Divino, por ser impossível aos nossos limites humanos e por sermos criaturas limitadas, a compreensão sobre a Trindade que está acima de toda compreensão e expressão. Mesmo assim, os Santos Padres, defensores da fé, por causa das heresias que a maioria das vezes surgiam dos meios filosóficos, usaram então terminologia de origem filosófica, batizando os termos filosóficos com uma compreensão ou sentido novo, sentido cristão onde todos estivessem de acordo. Assim, por exemplo, o termo Trindade (Trίaδ), não existe na Bíblia, tendo sido inserido por Teófilo de Antioquia (185), e a palavra correspondente em latim, Trinitas, de Tertuliano (21). Na Literatura patrística é possível dividir as expressões que se referem ao Mistério da Trindade em duas partes: as que têm relação com a essência e as que têm relação com a pessoa. Elas tiveram dificuldades de serem aceitas a princípio, porque o que um pensava que tinha ligação com a essência, para o outro a ligação era com a pessoa, e vice-versa. Por isso o assunto precisou de muito tempo para conseguir um comum acordo entre os Santos Padres sobre as determinações de cada expressão. Quando os Santos Padres usaram essas expressões que se referem à substância da essência divina, (оύσίa) em grego e (substantia) em latim, foi para designar o ser divino na sua unidade. Para designar o Pai, o Filho e o Espírito Santo na sua distinção real entre si, São João Damasceno diz: “Prόtwpon é o termo que se dá a conhecer nas suas obras e se destaca na suas variadas formas, mas da mesma natureza; por isso podemos dizer que a pessoa tem uma completa consciência, força para decidir e vontade para existir em comunhão com outras pessoas” [22], ou, num termo resumido, tem mente, vontade e amor. A Igreja confirmou as afirmações dos Santos Padres no seu II concílio Ecumênico de Constantinopla, proclamando a fé no seu Credo Constantinopolitano que é professado desde 381 que diz: “Cremos no Espírito Santo, que é o Senhor e que dá a vida, ele procede do Pai” [23]. Com isso a Igreja reconhece o Pai como “a Fonte e a origem de toda a divindade” [24]. A origem eterna do Espírito Santo que está vinculada à do Filho, pois Ele é “a Terceira Pessoa da Trindade, sendo Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho da mesma substância e natureza, é o Espírito do Pai e do Filho simultaneamente” [25]. Nesse mesmo concilio confessa-se: “Com o Pai e o Filho ele recebe a mesma adoração e a mesma glória” [26]. Portanto, podemos dizer que o Pai é a fonte de toda divindade e toda criação, o Filho é o Logos, é o Amor receptivo aquele que tudo transmite e revela a comunicação do Pai, o Espírito Santo é o amor recíproco e transformador entre as pessoas e o amor entre nós e Deus, é a auto-comunicação que nos transforma, agindo em nós, fazendo-nos viver no mesmo Mistério com a Trindade. Aqui vemos que Rublev soube encarnar literalmente no seu ícone tudo que se refere à Santíssima Trindade que os Santos Padres no de correr dos séculos nos deixaram como ensinamentos na literatura patrística. Há alguns Padres da Igreja que usaram o termo “o Espírito Santo procede do Pai no Filho” como são Gregório que disse: “O Espírito Santo tem sua existência do Pai e surgiu para o mundo por intermédio do Filho” [27], ou São Cirilo de Alexandria que diz “o Vivificador vem do Pai no Filho” [28], vem d’ele (Deus) conforme sua substância e concedido à humanidade através do Filho. Com isso, os Padres queriam dizer que o Filho é o motivo causador para o Pai enviar o Espírito Santo, e se o Filho não tivesse surgido no mundo, o Espírito Santo não teria sido enviado ao mundo. Ao dizer “no Filho”, “e do Filho”, “pelo Filho” ou “com o Filho”, estamos simplesmente usando termos humanos para expressar uma compreensão superior à nossa; por isso pensamos que o Pai está, porém com o Filho e por seu intermédio o Filho apresenta o Espírito Unificado, sem dizer que o Espírito Santo tenha surgido depois do Filho, mas existe ao mesmo tempo que ele e o Pai. O Espírito Santo procede da mesma eternidade do Pai e do Filho, ou da mesma eternidade do Pai com o Filho. São Máximo (+662), explica a forma do “Filioque” como uma interpretação para explicação do incompreendido. Na sua carta direcionada ao sacerdote Marin em Chipre diz: “ao dizerem os latinos que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho não tornam o Filho um problema ou fonte do Espírito, porque sabem que a fonte única para o Filho e para o Espírito é o Pai, a primeira na filiação e a segunda na procedência, porém dizem isso para mostrarem que o Espírito Santo procede pelo Filho para certificarem com isso a Unidade e comparação da essência” [29]. São João Damasceno usou várias vezes a expressão, “o Espírito Santo procede do Pai no Filho”, com o intuito de nos mostrar os dois significados; o primeiro que diz: “não dizemos o Espírito do Filho, mas confessamos que é no Filho que surgiu e nos foi proclamado o Espírito do Deus Pai e d’ele procede. Ao dizermos Espírito do Filho implica que é por seu intermédio que surgiu e foi proclamado à humanidade, sem ter recebido a sua existência dele. Por outro lado o Espírito Santo não é Filho do Pai, mas sim é Espírito do Pai, pois procede do Pai, e o Espírito do Filho, sem significar que é dele, mas significando que procede do Pai pelo Filho, porque o Pai é a única causa” [30]. Assim confirmamos que o Pai é a Única Fonte e procedência do Espírito Santo, e que pelo Filho surgiu aos seres humanos, enviado pela vontade dos dois e da sua reciprocidade no amor. Nessa reciprocidade o Pai contempla o Filho que contempla o Espírito Santo que por sua vez zela pela humanidade, pois seu olhar está voltado ao mundo que é representado pelo retângulo. No Ícone ao mesmo tempo vemos estes movimentos como convites para nós, o olhar do Pai esta voltada ao Filho nos lembra a palavra que ele pronunciou “Este é o meu Filho muito amado escutai-o”(Mt 3,17) . O Pai nos mostra o Filho, sem atrair a atenção sobre si, mas o Filho por sua vez, faz o mesmo nos indicando o Espírito Santo para dizer-nos “É Ele que vos lembrará tudo aquilo que eu vos disse e vos ajudará a entender aquilo que agora não entendeis” (Jo 16,-13)., Jesus também não atrai a nossa atenção sobre si, mas a faz voltar para o Espírito Santo e nos torna obedientes ao Pai. O Espírito Santo não é inferior aos outros dois, com a sua posição inclinada nos leva ao Filho e ao Pai, para que louvemos e o adoremos e nos coloquemos diante dele como filhos e se somos filhos, por conseqüência, herdeiros. Com isso nota-se que a vida deles é verdadeiramente uma unidade onde cada um perde a própria vida para os outros dois e nenhum pode estar sem o outro. No século IX, a Igreja se reuniu num concilio Ecumênico no ano 876 em Constantinopla, que foi presidido pelo Patriarca Fotios, e rejeitou a forma “e do Filho” que surgiu pela primeira vez no III concilio de Toledo em 588 [31], pois na tradição oriental se confessa o Espírito Santo como “procedente do Pai” (Jo 15,26). Essa igreja cristã que se diferencia na sua fé no Mistério Trinitário das outras religiões não cristãs, que é a base da teologia na qual se fundamentaram os Santos Padres para o sustento dos dogmas, que não é o único, mas o principal intuito da teologia. Conforme disse São Maximo o confessor, “se conhecermos por inteiro o significado do Mistério da Trindade, nos tornamos unificados plenamente com Deus, conquistamos a divinização do ser humano na vida divina com a Santíssima Trindade, assim nos tornamos como disse São Pedro: ‘participantes na natureza Divina’” (2Pd 1,4). A nossa fé é conforme os ensinamentos do São João Damasceno que disse: “numa única substância, numa única divindade em três hipóstases indivisíveis, incorruptíveis, ilimitáveis, eternos” [32]. Na realidade as três hipóstases são iguais na substância, na glória e na eternidade, como também são consubstanciais e indivisíveis, conforme os ensinamentos dos Santos Padres que aprofundam os ensinamentos da bíblia que nos permitem entender a trindade da divindade ou suas várias formas de manifestação e varias ações, na sua mesma essência, sem que um haja ou viva de uma forma egocêntrica sem a união completa com o outro. Por isso Eles não são três deuses (Triteísmo), mas Um Único Deus. Daí, o dito de São Gregório o Teólogo diz: “Nos Prostramos diante da Unidade Trinitaria e para a Trindade Uma que une indescritivelmente a unidade na diversidade” [33]. A Unidade significa a unidade da natureza e a semelhança nas características, ações e vontades, pois há para a personificação trinitária uma essência divina unificada, onde há convivência e intercomunicação por estar interligado um com o outro sem interrupção, sem interferência sem se misturarem, conforme o próprio Senhor Jesus Cristo nos explica no Evangelho de João “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jó 14,11); mesmo sendo consubstanciais Eles se diferenciam, tendo cada hipóstase diferenciada uma da outra. O Pai não é o Filho, como o Filho não é o Espírito Santo, entretanto cada um d’Eles possui a divindade por completo, pois Senhor Deus é o Pai, Senhor Deus é o Filho, Senhor Deus é o Espírito Santo, não sendo assim três deuses, mas um único Deus (única substância divina indivisível). A diferença não está na substância nem na natureza, mas na personificação. A primeira Pessoa possui a sua eterna natureza divina em si mesmo sem a ter recebido de ninguém, enquanto a segunda pessoa recebe a sua eterna natureza divina da primeira Pessoa pela filiação e a terceira Pessoa pela expiração. Por esse motivo a primeira Pessoa é chamada de Pai, a segunda de Filho e a terceira Pessoa de Espírito Santo. O Pai não tem procedência e nem início, por isso é chamado pelos Santos Padres de άκτιστο [34], Ele por natureza, gera o Filho e dá procedência ao Espírito Santo no incorpóreo em sua eternidade. O Filho é gerado da mesma e interrupta eternidade do Pai; recebe a mesma substância do Pai com toda a natureza divina, porque o Pai concede ao Filho toda a essência sem perder nada da sua própria. O Filho é gerado do Pai sem se diferenciar dele em nada desde a eternidade, como o fogo e a luz, pois quando nasce o fogo, nasce simultaneamente a luz sem se separarem e sem poder existir um sem o outro. O Espírito Santo procede desde a mesma e interrupta eternidade do Pai. Então qual a diferença entre a geração e a expiração? Não foi dado a nós, seres humanos, conhecermos essa diferença, mas a diferença e a semelhança das Pessoas, da Trindade não está na natureza e na substância. É na sua ligação entre eles mesmos que se definem; é a forma de sua existência e relação entre si que define as características da personificação (hipostatização). Para o Pai é a sua auto existência, sua paternidade e fonte de procedência, por parte do Filho é a filiação, e do Espírito Santo, a expiração; Se cremos no Pai cremos também imediatamente no Filho gerado e no Espírito Santo procedente do Pai intemporal, ininterrupto, infinito, incompreensível na nossa capacidade e sem hierarquias. A respeito da força e ações divinas, que surgem naturalmente das pessoas da Trindade são compartilhadas pelos três como na substância. Através desse argumento quero dizer que Deus na suas três Hipóstases emite ações únicas indivisíveis, mas como cada hipóstase tem sua própria essência divina de forma que se diferencia existencialmente da outra, assim toda hipóstase tem a força e ação simultânea, porém de formas diferentes. Porque a hipóstase Trinitária, na verdade, tem somente um único movimento da vontade divina que se inicia no Pai, passando pelo Filho e transparecendo no Espírito Santo. Por exemplo: a ação da criação é uma ação simultânea das Três Hipóstases, sem haver nenhuma ação particular que possa ser de uma única hipóstase da Trindade. Como não há distância entre a substância divina e a ação, não há diferença entre a hipóstase (pessoa) e a missão porque cada hipóstase divina está presente em todo lugar com sua substância, ação e força. Nós podemos reconhecer essa presença através da ação, e não através da substância, da trindade econômica. Por isso, na simples distinção, através do Espírito, reconhecemos a ação divina na presença de Deus em todas as três Pessoas divinas, e a graça que transborda até nós do céu é chamada de dom do Espírito Santo ou até de somente Espírito Santo porque o Espírito Santo é o próprio dom.
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Evdokimov, op. Cit., pp.285-286.
[12] Liturgia de Natal no ritual Bizantino: Liturgia das horas (Orologion) pg: 306 [13] Todo Poderoso [14] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa [P.G. 94,1320-1321] [15] Evdokimov;Paul – L’art de ícone – Theologie de la beaute – Desclée de Brouwer/1972 [16] DS. 213 [17] S. Gregorio.,Oration.Theologia Quinta de Spiritu Sancto 30,12 [P.G..36,133-172] [18] Orientações dos Doze Apóstolos e dos Santos Padres dos Primeiros Séculos.S. Irenaei: Baptizandi Symbolum Fidei [PG. 07 66-67] [19] Martyrium Polycarpi; 14,3 ano 110 [20] Carta de São Clemente aos Coríntios 46:6 [21] Inácio de Antioquia, ano 107, Carta aos Magnésios 13,1-2) [22] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa Lib I [P.G. 95, 832-834] [23] DS 150 [24] VI Conc. De Toledo em 693 DS 296 [25] XI Conc. De Toledo em 675: DS527. [26] DS150 [27] S. Gregório: Otatio XXXI de Spiritu Sancto [P.G.. 36,133-172] [28] La foi Catholique, Orante, 1961, pp. 193-195 [29] S. Maximi: Otationis Dominice I [P.G .91. 901] [30] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa Lib I [P.G. 94. 794] [31] DS 294 [32] S. Joannis Damasceni: De Fide Orthodoxa Lib I [P.G. 94, 812] [33] S. Gregório Nazianzeno, Oraitiones, (Caps 13,14,15,29 e 30 pg44,45) [34] o que não tem inicio |
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