IV - A Espera do Messias
Toda a história está nas mãos de Deus
odo o Antigo Testamento[1],
desde o primeiro capítulo do Gênesis, apresenta a história humana como um
movimento de criação e desenvolvimento iniciado por Deus e depois confiado
ao homem. Deus continua a dirigi-lo e controlá-lo com grande precisão
segundo o seu particular desígnio e vontade de modo que, tanto na vida de
um indivíduo como de uma geração ou nação, o movimento da história apareça
claramente em total e perfeita submissão à sua vontade e presciência. Deus
é o “Rei dos séculos” (1Tm 1,17) e tudo se realiza segundo seu determinado
desígnio e presciência” (At 2,23). Deus também estabelece de modo
irrevogável o movimento do tempo em favor do homem, tendo “estabelecido a
ordem dos tempos e os limites do espaço” (At 17,26).
Transcendência da história em Deus
O movimento do tempo como que mostra-se independente de
nós, e assim parece livre e não ligado ao homem: realmente, o sol surge e
se põe querendo ou não o homem, e os anos transcorrem, o verão e o inverno
se alternam, independentemente de sua vontade. Parece até que o tempo
debocha do homem, como se o submetesse à sua autoridade. Na realidade,
Deus submeteu ao homem o transcorrer do tempo e toda a sua solene
grandeza, para que a partir dele o homem possa modelar a própria história
espiritual no seu desenrolar-se através dos séculos e, no final, elevar-se
acima do transcorrer do próprio tempo; eis a que é chamado o homem: ser
unido a Deus na vida eterna, onde não existirá nem sol nem lua, nem verão
nem inverno (cf. At 21,23). Cristo se referia a esta realização à qual
tende a história, quando disse: O céu e a terra passarão, mas as minhas
palavras não passarão (Mt 24,35).
Considerado como movimento que se verifica na realidade
material, no céu e na terra, o tempo é algo de morto e passageiro mas, na
realidade humana, ele é vivo, é uma história duradoura, a história da
salvação, a história da palavra de Deus que nunca retorna sem produzir
efeito. É um movimento que tem início em Deus e em Deus termina, consigo
levando a humanidade redimida: Antes de ter formar no seio materno eu te
conhecia, e antes que viesses à luz eu tinha te consagrado (Jr 1,5).
Assim, se o homem age segundo a vontade de Deus, em harmonia com o
conhecimento de Deus e a ele consagrado, eleva-se acima do tempo e
realmente o submete à vontade de Deus, transformando as horas, os dias e
os anos numa história da salvação, numa idade divina, vida eterna no reino
de Deus: Eis agora o tempo favorável, eis agora o dia da salvação (2 Cor
6,2).
O homem que se opõe à vontade de Deus e deliberadamente
despreza o conhecimento dele e a santidade, cai prisioneiro do tempo e se
transforma em parte morta de uma idade morta. E a pessoa, que por
necessidade, é obrigada a dominar o movimento do tempo, realiza a vontade
de Deus, mas por constrangimento, sem perceber, sem querer e sem
alegrar-se com isso. É como o frio do inverno ou o calor do verão,
importantes mas ao mesmo tempo insignificantes, que servem ao crescimento
das criaturas, mas não são amados por elas; dão-lhes energia, força e
renovação, enquanto estão mortos em si mesmos.
A intervenção de Deus na história humana
Todo o Antigo Testamento é uma história viva que, com
clareza e vivacidade, narra a constante bondade de Deus e o seu comunicar
com o ser humano para elevá-lo acima do passar do tempo morto. Deus
completou esta obra intervindo com a sua Palavra e transformando o
suceder-se dos anos e das gerações numa história sagrada e viva, a
história de Deus com o homem e do homem com Deus.
Isso significa que toda a Torá é tanto a história da ação
da palavra de Deus na humanidade, quanto uma história das ações dos homens
em acordo ou em contraste com a palavra de Deus. O passar do tempo no
Antigo Testamento concorreu para a revelação de Deus e de todos os seus
atributos ao homem e no homem. Isso aconteceu tanto quando a vontade de
Deus era observada ou quanto era rejeitada; a rejeição interposta pelo
homem à vontade de Deus era um novo elemento no qual se pode revelar a
habilidade de Deus em conduzir a humanidade à submissão.
Cada é pessoa é parte de cada livro da Bíblia
Quando lemos os livros da Bíblia, à primeira vista eles
parecem constituir somente uma história de eventos temporais. Mas, se
consideramos em profundidade o seu fim e propósito e introduzimo-nos
naquilo que lemos, descobrimos que sua finalidade é revelar, exatamente em
nossas pessoas, o Deus vivente. É-nos dado ver quem somos e então começar
a ver Deus como ele é, especificamente confrontando-o conosco. Qual é,
pois, o significado da revelação de Deus ao ser humano? Aqui está todo o
segredo da Torá e do evangelho, o significado fundamental da humanidade e
a plenitude da história: “A vida eterna consiste em que te conheçam a ti,
o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste” (Jo 17,3).
Aproximar-se de Deus no tempo através do conhecimento
Deus é verdade, vida e luz eterna. O conhecimento da
verdade é participação na verdade; o conhecimento da luz é iluminação.
Quando perdeu o conhecimento de Deus, o homem perdeu a verdade em si mesmo
e perdeu a vida e a luz eterna. Nada mais pode conhecer além do passar do
tempo que corre à margem de sua pessoa e o mantém sob seu poder, até que a
morte o derrube. Todas as estradas possíveis para o conhecimento de Deus
foram preparadas para o homem; é o conhecimento de Deus que o livra do
cair sob o domínio do tempo e de seu ilusório fim, representado pela
morte. O conhecimento de Deus é a revelação constante que ele faz de si
nas mentes e nos corações de todo o povo através da comunicação do amor.
Por outro lado, é vivendo na perene e alegre união com a fonte do ser que
está a garantia de vida e de imortalidade. Isso, inevitavelmente, provoca
a nossa elevação acima do passar do tempo e da morte, até a percepção de
nossa qualidade de seres maiores do que o tempo, acima dos acontecimentos,
mais verdadeiros e duradouros do que a morte.
A palavra racional e a Palavra encarnada
Mas, para que a revelação de Deus fosse perfeita, em todas
as épocas todas as gerações deviam ter a experiência do conhecimento de
Deus, a fim de que, no final, todos pudessem conhecer Deus como a verdade
plena que transcende a percepção individual, e conhecer a vida eterna como
vida que se estende além do tempo e da existência de cada pessoa. Por
isso, era necessário que a humanidade passasse através de duas idades da
vida com Deus, os dois Testamentos, completamente distinto um do outro.
A primeira, a que chamamos de Antigo Testamento, representa
a revelação indireta através da palavra racional. A segunda, o Novo
Testamento, representa a revelação direta através da Palavra encarnada.
A diferença entre o Antigo e o Novo Testamento é resumida
no início da Carta aos Hebreus: “Deus, que já tinha falado muitas vezes
nos tempos antigos, e de diversas maneiras, aos pais, por meio dos
profetas, nestes dias que são os últimos falou-nos por meio do Filho” (Hb
1,1-2).
Isto mostra claramente que a revelação no Antigo Testamento
era indireta, revelação aos profetas através da palavra inspirada de Deus,
acontecida em tempos diversos (“nos tempos antigos”) e através de
diferentes acontecimentos (“muitas vezes e de diversas maneiras”). O Novo
Testamento, pelo contrário, é auto-revelação direta de Deus (“por meio do
Filho”) que transcende a história (“falou-nos”). Esta revelação não pode
perder a atualidade ou ser limitada pela história (“nestes dias que são os
últimos”), pois a Palavra se fez carne. A revelação de Deus nos dois
Testamentos se coloca em dois planos distintos e complementares: o
primeiro é o plano histórico objetivo, baseado na palavra racional
inspirada através do passar do tempo, o mudar-se dos acontecimentos e o
suceder-se das gerações; o segundo é o plano da real auto-revelação,
baseado na encarnação da eterna Palavra de Deus. Esta segunda é uma
revelação direta que transcende o tempo e se completou graças à
encarnação, com a aparição de Deus na carne, sem que Deus sofresse mudança
em si mesmo.
A revelação de Deus no homem e em si nos
dois Testamentos
O método historicamente usado por Deus para revelar-se no
Antigo Testamento tinha três componentes fundamentais:
O primeiro consistia em fazer ao povo, enquanto nação,
promessas temporais específicas com relação à existência da nação e suas
relações com as outras nações. No tempo marcado Deus cumpriria as
promessas por meio dos juizes, dos chefes e dos reis dos quais tinha
preestabelecido os movimentos e as ações: assim o povo poderia perceber
Deus em sua condução perfeita dos eventos.
O segundo componente era constituído pelos mandamentos,
pela legislação e pelas normas religiosas e litúrgicas, incluindo a
necessária consagração de ministros e unção de sacerdotes, para instruir o
povo e fazê-lo aproximar-se de Deus: assim o povo poderia perceber Deus
através da purificação.
O terceiro consistia em dar ao povo as profecias e a
indicação espiritual do futuro que o aguardava na contínua relação com
Deus e sobre a missão junto aos outros povos da terra. Esta foi a missão
dos profetas que falaram movidos pelo Espírito de Deus: assim o povo podia
conhecer Deus no arrependimento e no retorno a ele.
O surpreendente é que cada um desses três componentes está
presente em cada livro da Bíblia, e um estudo e meditação aprofundados
mostram que formam um plano claro e perfeito, dotado de um método lógico e
de um fim preciso.
Os juizes, os chefes e os reis se sucederam uns aos outros
em Israel no arco de dois mil anos, tendo claramente em comum uma
autoridade divina, apesar das diferenças morais e religiosas entre si e os
muitos fracassos. É como se tivessem sido designados por Deus para atuar
um único plano divino, independentemente do sucesso ou do fracasso
individual.
O mesmo vale para os levitas e os sacerdotes. Apesar de
suas posições, funções e qualidades diversas, e apesar do fracasso de
muitos, estavam comprometidos com o único serviço que desenvolviam pelo
povo e que Deus aceitava sem olhar a sinceridade e a retidão, ou a
deslealdade e a rebelião com que agiam.
O mesmo se pode dizer para as palavras dos profetas. Todas
as profecias que, digna ou indignamente, foram pronunciadas no curso do
Antigo Testamento, são testificadas pelas Escrituras como palavras do
Espírito Santo e se cumpriram no tempo estabelecido, mesmo se o profeta
que as anunciava fosse impuro ou se o povo houvesse rejeitado a profecia.
Além disso, esses três caminhos, exemplificados no rei, no
sacerdote e no profeta, fundamento do método pedagógico historicamente
usado por Deus para revelar-se a si mesmo ao povo de Israel no curso dos
séculos, estão ligados entre si por uma suprema unidade de finalidade que
progride no tempo. O reino de Israel, isto é, o método de governo e o
método de viver do rei, era garantia da prática do culto de Deus, do
serviço do santuário, da manutenção do sacerdócio, do sacrifício
quotidiano a Deus e da execução de todas as funções sacerdotais. Tudo
isso, por sua vez, estava unido às palavras do profeta com respeito à
integridade e à correção dos fins que motivavam Israel enquanto povo.
Portanto, a unidade de Israel pode parecer fundada num sistema - um
sistema de monarquia, sacerdócio e profecia - mas em sua essência
tratava-se de uma unidade orgânica vivente. O rei, o sacerdote e o profeta
não representavam três sistemas, mas eram três componentes de um corpo
vivente, que Deus controlava e guiava para uma finalidade específica e
para uma meta de importância vital para todo o mundo: a revelação do
próprio Deus.
O plano divino acompanha e realiza a constituição deste
corpo vivente (um povo guiado por um rei divinamente consagrado, servido
por um sacerdote divinamente constituído, inspirado por um profeta que
falava movido pelo Espírito Santo) e pode ser sintetizado no desejo de
Deus de se revelar ao mundo através deste corpo vivo que progredia no
tempo e no arco de muitas gerações. O rei, na sua absoluta soberania,
revelava Deus como governante e salvador do povo. O sacerdote, no seu
serviço sacerdotal, o revelava qual reconciliador e restaurador do povo. O
profeta, em suas palavras e visões, o revelava como aquele que conforta e
instrui o povo.
Mas existe um outro surpreendente mistério, complementar ao
precedente, que deve ser lembrado. Deus não considerou o povo de Israel
como um povo separado de si. Pensou-o como seu filho primogênito, pois era
o primeiro entre os povos do mundo a ser amado por Deus; pensou-o também
como seu servo dileto, porque era o primeiro povo que servia a Deus
segundo um sistema cultual específico. Contudo, não viu todas essas coisas
na pessoa de seus reis, ou dos sacerdotes, ou dos profetas, e nem mesmo na
nação, também ela rebelde. Contemplou-as na pessoa do Messias, que deveria
dar plenitude ao conceito de realeza (governo justo e divino), ao conceito
de sacerdócio (redenção e salvação), e ao conceito de profecia (uma
revelação de Deus direta e não mediada por alusões). O Messias os
representaria diante de Deus na sua qualidade de verdadeiros filhos, sendo
o Filho divino de Deus, mesmo que simultaneamente permanecesse um servo de
Deus e um verdadeiro israelita segundo a carne, pois era da estirpe de
Abraão, filho de Davi.
Deste modo, desde o início o Messias era considerado rei,
sacerdote e profeta.
O Rei eterno, à cuja imagem foram criados Davi e todos os
reis divinamente consagrados e no qual a realeza atingiria o ápice. O
comando do Reino de Israel devia permanecer para sempre em seus ombros, na
verdade divina e não simplesmente na história, porque seu trono não teria
fim: Nasceu-nos um menino, um filho nos foi dado. Em seus ombros está o
sinal da soberania e é chamado de: Conselheiro admirável, Deus poderoso,
Pai para sempre, Príncipe da paz; grande será o seu domínio e a paz não
terá fim no trono de Davi... (Is 9,5-6).
O Sacerdote, à cuja imagem foi criado todo sacerdote, para
que servisse diante de Deus como mediador junto ao povo, e no qual o
sacerdócio encontra o seu ápice. A mediação reside em sua pessoa, pois ele
é o único mediador da redenção, o perdão dos pecados e a reconciliação
eterna entre Deus e o homem.
O Profeta em cujo nome profetizou todo profeta e do qual
tinha indicado a vinda na plenitude dos tempos. Nele deviam alcançar a
plenitude todas as profecias, todo o conhecimento, toda a sabedoria do
tempo presente, pois Cristo é a perfeita revelação vivente diante de Deus
e do homem. Não há mais nenhuma necessidade de se profetizar a respeito
dele, pois toda carne viu a salvação de Deus.
O Novo Testamento indica a misteriosa e perfeita relação
entre Israel como povo e o Messias, o Cristo. Tudo o que se atribuía a
Israel pode ser atribuído ao Messias de modo preciso e exato. Por exemplo,
quando o Senhor Jesus retornou do Egito, aonde se tinha refugiado com sua
mãe e José, dele disse Deus: Do Egito chamei meu filho (Mt 2,15). Essa
mesma palavra tinha sido referida ao povo de Israel quando deixou o Egito
(cf. Ex 4,22-23: Israel é meu filho primogênito... deixa partir o meu
filho, e Os 11,1). É como se o povo de Israel tivesse agido
simbolicamente, pondo em prática a obra, a vida e o caráter do Cristo que
viria.
Na realidade, as características comuns ao povo de Israel e
ao Messias referem-se à totalidade da revelação cristã, a ponto de as
profecias dirigidas a Jacó - chamado Israel - deverem ser entendidas
também como dirigidas ao Messias. Quando a profecia diz: Jacó meu servo
(Is 44,1) e meu servo Israel (Is 49,3), refere-se ao Messias, mas pode ser
explicada e aplicada tanto ao Messias como ao povo de Israel, sem
contradição alguma. Esse é o maravilhoso mistério que está por detrás do
fato de Cristo ser chamado Filho e Servo e, ao mesmo tempo Rei, Sacerdote
e Profeta, pois ele é um verdadeiro israelita ou, mais precisamente, o
verdadeiro Israel, e é verdadeiramente o Filho de Deus [2].
Isso mostra a interdependência dinâmica entre a pessoa do
Messias e as pessoa do povo de Israel. Cada palavra proferida por Deus,
cada mensagem, cada ação realizada através de seus reis, sacerdotes e
profetas para o povo de Israel tinha seu fundamento na pessoa do Messias e
tinha como finalidade encontrar sua realização e sua meta definitiva nele,
o Rei eterno, o único Sacerdote e o Profeta que pronunciava palavras por
sua própria autoridade. Dele dependia toda a existência e toda a vida de
Israel.
Por isso, a história do povo de Israel, com o conjunto das
vicissitudes de seus reis, com todos os ritos de seus sacerdotes e todas
as sentenças de seus profetas, é a história e o conhecimento do Messias,
mas simbolicamente narrada na forma de um povo escolhido com atenção e
amor, para representar Deus no meio dos povos da terra e dele proclamar a
existência e a misericórdia para as demais nações.
Até as tragédias de Israel, sua escravidão e os contínuos
castigos no decorrer da história, não podem ser excluídos da esfera de
ações positivas com que Deus conduzia o seu povo adiante, lentamente mas
com segurança, fazendo-o aproximar-se dos outros povos e reinos da terra.
Tudo isso aconteceu para a unidade com as outras nações do mundo, que
Israel deveria realizar na pessoa do Senhor Jesus, o Messias. Quando Jesus
tornou perfeita essa união entre Israel e as nações, e em si mesmo, na
cruz, fez dos dois um só povo, então se concluiu a missão histórica de
Israel. Ou, mais precisamente, a missão do Messias da história se concluiu
e então começou a missão do Cristo nas nações, o Cristo da vida eterna.
A unidade intrínseca e orgânica que existe entre a pessoa
de Israel e a pessoa do Cristo clarifica o motivo pelo qual, além da
pessoa de Cristo, que é o princípio e o fim de Israel, não se pode
explicar nem compreender o fim de todos os eventos históricos, de toda a
legislação e ritos, de todos os ensinamentos e profecias testemunhadas
pelo Antigo Testamento, apesar de serem peculiares ao povo de Israel e seu
patrimônio autêntico. Como diz o apóstolo Paulo, Cristo é o fim da lei
dada a Moisés; analogamente é o fim do reino fundado por Davi e, também, o
fim das profecias anunciadas pelos profetas. Verdadeiramente, ele é o fim
do próprio Israel e, conseqüentemente, o fim da humanidade, pois todas as
coisas nele subsistem (Cl 1,17) [3].
O Antigo Testamento, portanto, prepara o caminho para
Cristo, representando-o no tempo e no cenário da história através de
“figuras”. Antes de nele encontrar sua realização, praticamente, os
acontecimentos históricos eram uma profecia que indicava de modo
específico o Cristo. Semelhantemente, todos os ritos sacerdotais, ou os
atos de culto, continuaram a atrair o espírito humano para perto do
mistério de Cristo, o verdadeiro Cordeiro, antes de atingir um fim
imprevisto, quando seu sangue foi derramado na cruz para que todos
pudessem voltar para ele e contemplá-lo. Também as profecias denunciavam
constantemente o enganador revestimento externo que ocultava a verdade do
Reino do Messias que vinha, o Reino de graça e verdade, espírito e vida,
até que ele se revelou definitivamente e nós o vimos e o tocamos com as
nossas mãos na Palavra de Vida, Jesus Cristo, o qual é Espírito de
profecia (Porque o espírito profético não é outro que o testemunho de
Jesus - Ap 19,10). Cristo era e é o eixo em torno do qual se decide toda a
Torá e a totalidade da história da salvação humana. Entre as mais belas
imagens do Messias de Israel, talvez esteja a de Daniel: a visão do
Messias qual Filho do homem. Nela, o Messias de Israel, centro da
salvação, do reino e da glória de Israel, se torna a imagem do Messias de
toda a humanidade, que abraça a totalidade da criação humana e se torna o
centro de uma salvação, de uma glória e de um reino que transcendem a
realidade deste mundo: Olhando sempre a visão noturna, vi um ser
semelhante a um filho de homem vir sobre as nuvens do céu: dirigiu-se para
o lado do ancião, diante de quem foi conduzido. A ele foram dados império,
glória e realeza, e serviram-no todos os povos, todas as nações e os povos
de todas as línguas. Seu domínio será eterno; nunca cessará e seu reino
jamais será destruído (Dn 7,13-14). Esta verdade era um dos ensinamentos
mais importantes dos rabinos e dos mestres inspirados de Israel no período
precedente ao nascimento de Cristo. Eles insistiam no fato de que não
existia nenhuma profecia além do Messias. “Todos os profetas profetizaram
somente com relação aos dias do Messias”. “O mundo inteiro foi criado para
o Messias”[4]. É a mesma
verdade que fundamenta os escritos do Novo Testamento. O próprio Cristo a
confirma como um fato digno da máxima atenção: E começando por Moisés e
por todos os Profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que a ele se
referia (Lc 24,27). Eis o fundamento da fé impressa na mente da Igreja
primitiva. Todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele. Ele
existe antes de todas as coisas e todas subsistem por ele (Cl 1,16-17).
Quando os mestres e os rabinos de Israel se deram conta
disso, passaram a recolher todos os eventos e as profecias contidas nas
Escrituras que indicavam o Messias, incluído aquilo que se referia à sua
pessoa, às suas obras e ao tempo de sua vinda na história. Recolheram 458
referências messiânicas, das quais 75 do Pentateuco, 243 dos livros dos
profetas e 138 das histórias dos patriarcas, e as registraram no tratado
do Sanhedrin. Infelizmente, porém, os últimos mestres e rabinos que
viveram imediatamente antes da vinda de Cristo, se emaranharam em
complicadas interpretações destes textos referidos ao Messias, e
perderam-se em deduções bizarras e absurdos que ocultavam a verdade e
obscureciam o rosto da pessoa real na qual Cristo veio. As profecias
referentes ao Messias foram distorcidas nas mentes dos chefes, sua
capacidade de perceber a verdade desaparecera e seus olhos se tornaram
cegos diante da visão da luz, quando essa surgiu. Além disso, o
conhecimento espiritual dos chefes se enfraqueceu porque consideravam
exclusivamente a forma externa da lei. Para os sacerdotes, os fariseus, os
saduceus e os escribas, a essência da religião consistia na observância
exata da lei, na repetição dos textos que a continham, na repetição de
breves orações e num zelo patriótico para recuperar as glórias de um
tempo, o reino e a antiga supremacia. Para eles, o campo da espera
messiânica esgotava-se nisso e não podiam levar em consideração atividades
ou ações ou interesses que lhes fossem estranhos.
Inclusive, pensavam que a vinda do Messias simplesmente
deveria levar à consolidação da antiga forma de culto com seus mínimos
detalhes, e ao cumprimento de suas esperanças. Deste modo, o culto judaico
distanciou-se do verdadeiro significado messiânico que possuía na intenção
divina. As Escrituras e as profecias não mais foram interpretadas em seu
significado essencial; ao invés de convergirem na pessoa do Messias que
devia vir como Salvador do mundo através de Israel, foram entendidas como
a descrição de um Messias que viria como chefe do mundo, instrumento para
restaurar a glória do povo de Israel.
Deste modo, mal Cristo fez sua aparição em público,
irrompeu um conflito entre ele e os chefes dos judeus: apesar de seu
ensinamento ser de origem divina, quanto mais sua pregação ignorava a
escrupulosa dependência dos insignificantes detalhes da lei, as
purificações e os excessos de religiosidade, a glória mundana e a
supremacia de Israel, tanto mais Cristo era rejeitado pelos sacerdotes,
doutores da lei e pelos grupos zelotas do povo. Eles dedicavam-se
fanaticamente a seus ritos, à sua raça, a seu estado e pensavam que Jesus
não possuía as qualidades necessárias para ser o Messias segundo a imagem
que dele tinham feito, seguindo sua própria inclinação e seus fins
corruptos.
Contudo, não era geral esse ofuscamento do significado
essencial da fé no Messias no interior dos grupos dos sacerdotes, dos
escribas, dos fariseus e dos saduceus. Permanecia uma parte do povo de
Israel, incluindo também chefes e outros homens piedosos, que soube
conservar ainda o espírito autêntico do culto e aderir às fiéis promessas
de Deus. Este resto de homens piedosos com fé ardente anelava pela vinda
do Messias, pois o tinham descortinado no estudo dos profetas e dos
mestres de Israel. O Novo Testamento, nas primeiras páginas dos
evangelhos, oferece-nos alguns exemplos destes crentes: o velho Simeão, a
profetiza Ana, o sacerdote Zacarias, Isabel e a santa virgem Maria.
Notas:
[1] Durante o
Advento, a Igreja reflete a relação entre o Antigo e o Novo Testamento e a
confirmação das profecias ligadas à encarnação da Palavra.
[2] Ele, que é
de condição divina, não considerou como presa a agarrar o ser igual a Deus.
Mas despojou-se, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos
homens (Fl 2,6-7).
[3] Porque
aprouve a Deus nele fazer habitar toda plenitude (Cl 1,19).
[4] Sanhedrin
99a ; 98b.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen. |