V - Natal: o Cristo da História, um Cristo Vivente
E vós, quem dizeis que eu sou?...
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente.
(Mt 16,15-16).
nascimento de Cristo, sua morte e ressurreição, são acontecimentos
sobrenaturais que ultrapassam em muito sua dimensão histórica, e é por isso
que seu impacto direto sobre toda a humanidade superou qualquer critério da
lógica humana. Quanto à autoridade de Cristo, é suficiente pensar naquilo
que os discípulos afirmaram após a ressurreição, prestando seu testemunho no
processo movido pelos escribas e anciãos dos judeus: Em nenhum outro há
salvação; nenhum outro nome foi dado aos homens abaixo do céu pelo qual
possamos ser salvos (At 4,12).
Por isso, devemos prestar a máxima atenção quando o evangelho nos narra a
vida de Jesus Cristo. O que lemos no evangelho segundo Mateus e segundo
Lucas, sobre o nascimento humano que acontece no coração da história, é
situado por João num contexto divino que transcende a história, pois aquilo
que para Mateus e Lucas é o nascimento do menino Jesus, para João é a
encarnação da Palavra existente desde o princípio.
Analogamente, para sua morte: enquanto os três evangelhos sinóticos oferecem
a narração do ponto de vista da história individual e humana de Jesus, o
quarto evangelho deles se destaca para elevá-la além do nível de uma
história individual, e nela revela o mistério da redenção divina que abraça
toda a humanidade:
Os pontífices e os fariseus convocaram o Conselho e disseram: Que faremos?
Este homem multiplica os milagres. Se o deixarmos proceder assim, todos
crerão nele, e os romanos virão e arruinarão a nossa cidade e toda a nação.
Um deles, chamado Caifás, que era o sumo sacerdote daquele ano, disse-lhes:
Vós não entendeis nada! Nem considerais que vos convém que morra um só homem
pelo povo, e que não pereça toda a nação? E ele não disse isso por si mesmo,
mas, como era o sumo sacerdote daquele ano, profetizava que Jesus haveria de
morrer pela nação e não somente pela nação, mas também, para que fossem
reconduzidos à unidade os filhos de Deus dispersos (Jo 11, 47-52) O céu e a
terra, o tempo e a eternidade se unem.
Podemos perceber, exatamente no coração do evangelho, como a história e a
eternidade se misturaram numa assombrosa sintonia. A história é e permanece
história: ela descreve apenas o passado com seus acontecimentos, concluídos
e passados, gravados nos dias, nos meses e nos anos. O homem sempre julgou
inconcebível a eventualidade de que num dia a história e a eternidade
pudessem misturar-se. Naquele tempo, na pessoa de Jesus Cristo, a história
ganhou a força de ficar em pé, viva e doadora de vida, poderosa na sua
eficácia, entrecruzada com as profundezas do próprio Deus e da eternidade,
pronta para transportar o passado mortal do ser humano a uma vida eterna e
imortal, nada menos do que isso.
A história - o tempo - era o destino em que toda a história de cada criatura
era obrigada a se aprisionar, pois era criada, vivia e morria. Foi assim até
que - na plenitude do tempo - nasce, num dia, num mês e num ano preciso da
história, um menino chamado Jesus; ele foi registrado como um cidadão normal
nos registros do recenseamento imperial. Há dois mil anos de distância desse
nascimento e de acordo com aquilo que é indicado nos evangelhos,
acontecimentos claros demonstraram com insistência e com sinais evidentes
que naquele lugar e naquele menino era inaugurada uma nova história da
humanidade. Um mistério que engloba também o céu e suas criaturas e se
dilata até a eternidade de Deus.
Eis o
testemunho do evangelho segundo Lucas:
Havia naquela região alguns pastores que faziam vigília de noite guardando o
seu rebanho. Um anjo do Senhor apresentou-se diante deles e a glória do
Senhor os envolveu de luz. Eles foram tomados de grande temor, mas o anjo
lhes disse: Não tenhais medo, eis que eu vos anuncio uma grande alegria, que
será para todo o povo: hoje nasceu para vós, na cidade de Davi, um salvador,
que é o Cristo Senhor. Isso vos servirá de sinal: encontrareis um menino
envolto em faixas, e jaz numa manjedoura. E imediatamente apareceu com o
anjo uma multidão do exército celeste que louvava Deus e dizia: “Glória a
Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens que ele ama. (Lc 2,
8-14)
Este acontecimento celeste foi a primeira violação aberta dos limites
impostos ao espaço da humanidade e à sua capacidade de narrar a história
segundo o nível do tempo. A violação, da parte dos anjos, do campo visível
e auditivo do homem, é algo que originariamente não pertencia à história ou
à capacidade receptiva humana. É evidente que o recém-nascido é de tal
condição que, uma vez descido ao nível humano e terreno na manjedoura de
Belém, imediatamente abriu-se uma brecha rumo à condição divina e celeste;
isso não fica sem efeito no mais alto dos céus.
Aqui, o anjo desempenhou uma missão particularíssima: aparece como um
evangelista a serviço dos seres humanos e assim - com base nas ordens
recebidas de Deus - encarregou-se de recordar a cada um a importância deste
dia na história da humanidade: dia de “grande alegria”, pela qual todos
poderão alcançar sua felicidade na terra. Na ótica divina, de fato, o dia da
natividade de Cristo representa o nascimento do Salvador. Aqui, o anjo
entra pela primeira vez na história como um cronista, ao mesmo tempo, porém,
revelando o valor deste momento, valor escondido na natureza daquele que
nasceu: não é um dia à maneira dos homens, mas é “dia de salvação”, “grande
alegria”, “comprazimento nos homens”. Com o nascimento deste menino
salvador, terminaram os dias de dor e iniciaram os da bem-aventurança.
Pôs-se fim ao tempo da desobediência do homem, e teve início o da
glorificação de Deus da parte dos homens na terra e dos anjos no céu, ambos
no mesmo plano! Apesar de que o “hoje” da saudação do anjo possa fazer
pensar num ponto de partida temporal, trata-se do início de uma época
pós-histórica: é a história da salvação eterna, a história da alegria divina
que devia ser lançada na terra para jamais ser arrebatada do coração do
homem.
Deste modo, a violação do mundo humano da parte dos anjos e da multidão dos
exércitos celestes é, na realidade, o prelúdio do ingresso do homem no mundo
celeste, no mundo dos anjos e de Deus na pessoa daquele que nasceu para
transcender os limites do tempo e do espaço. Em outras palavras, o
nascimento de Cristo foi o início de uma reconciliação entre dois mundos: de
um lado Deus e os seus anjos e de outro, o homem e seus sofrimentos; foi o
ponto de partida da revelação daquilo que está nos céus e a manifestação do
invisível. É a partir da natividade que os evangelistas iniciaram a narração
da história de Cristo. Mas eles narraram a história de Deus, não a do homem;
narraram a realização das promessas eternas de Deus, feitas nos tempos
antigos e realizadas no tempo estabelecido em Jesus Cristo seu Filho,
oferecido pelo próprio Deus à nossa terra numa carne semelhante à nossa. Sua
vinda tinha sido anunciada por todos os profetas nas santas Escrituras que o
Espírito tinha gravado nos corações dos homens e mulheres de fé, de modo a
serem conservadas e guardadas com cuidado através da sucessão dos séculos,
até o dia da aparição de Cristo.
A história de Cristo é a história de Deus com relação à salvação humana,
Cristo é a Palavra de Deus para o homem, como se lê na Carta aos hebreus:
Nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho (Hb 1,2).
Mesmo que a história da vida de Cristo salvador possa parecer uma história
narrada no tempo sob a forma de acontecimentos delimitados pelo tempo e pelo
espaço, na verdade, é a manifestação de Deus na verdadeira natureza do
gênero humano, a manifestação do céu na terra, da eternidade na plenitude do
tempo.
Os
Evangelhos, obra do Espírito Santo
Os evangelhos parecem uma narração escrita por quatro pessoas empenhadas em
fazer uma pesquisa sobre tudo o que aconteceu. Mas o Espírito Santo que
inspirou os evangelistas enquanto os deixava descrever Cristo segundo aquilo
que tinham visto, experimentado ou observado, exercia ao mesmo tempo o
próprio controle sobre cada coisa vista ou vivida. Deste modo, vinculava-os
à sua fonte divina com alusões sutis e com explicações: assim, o Espírito
revelava o mistério da eternidade através da história, o mistério do
invisível no visível e o mistério da divindade na carne. Assim o evangelho
revela infalivelmente a excepcionalidade da pessoa de Cristo. De modo algum
é difícil, mesmo para gente simples e sem instrução, perceber
espiritualmente este dado. Uma pessoa assim transcende a história, vai além
dos acontecimentos e das circunstâncias referidas nos evangelhos, permanece
sempre viva e eficaz porque cada linha do evangelho a revela como a pessoa
do Filho do Deus vivente.
O Espírito Santo agiu de modo a transmitir a experiência dos evangelistas e
sua compreensão espiritual com a mesma inefável alegria com que,
pessoalmente, tinham acolhido a mensagem: por esse motivo confiou-lhes as
mais profundas verdades da fé. O evangelista João revela-nos a autenticidade
do sentimento de que era possuído enquanto escrevia o evangelho:
Aquilo que era desde o princípio, aquilo que nós ouvimos, aquilo que nós
vimos com nossos olhos, aquilo que nós contemplamos e aquilo que nossas mãos
tocaram, o Verbo da vida (pois a vida fez-se visível, nós a vimos e disso
damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava junto do Pai e a
nós fez-se visível), aquilo que vimos e ouvimos, nós o anunciamos também a
vós, para que também vós estejais em comunhão conosco. A nossa comunhão é
com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. Essas coisas vos escrevemos, a fim
de que a nossa alegria seja perfeita. (1Jo 1,1-4).
O leitor do evangelho deve aderir com toda confiança ao Espírito que
inspirou o texto e nunca perder, de jeito algum, este elemento em seu
caminho da história para a eternidade, em sua passagem do visível ao
invisível; de outro modo, desanimaria nas peripécias da história, pondo-se a
procurar entre os mortos aquele que está vivo! (cf. Lc 24,5)
É absolutamente impossível - conforme toda a tradição evangélica - que
alguém possa reconhecer Cristo como Senhor se não for por obra do Espírito
Santo. Analogamente, Cristo não pode revelar-se a alguém a não ser por meio
do Pai que está nos céus. Este dado nos revela as dimensões da profunda,
substancial e infinita relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, não
só em sua entidade pessoal, mas também em relação à possibilidade de sua
manifestação: Deus pode ser revelado somente em sua totalidade.
A encarnação, seu nascimento e ingresso na substância da história humana,
puseram o evangelho em condição de movimentar-se entre a história e a
eternidade, tornando verossímil um mistério que se situa além da razão. Este
acontecimento torna Deus acessível ao conhecimento humano após o isolamento,
o exílio, a separação e também a hostilidade em que todos viveram, distantes
do único santo, absoluto e incognoscível Deus.
Não nos esqueçamos de que o encontro entre a eternidade e a história, vivido
de modo realístico e sensível, nunca conhecera precedente. No nascimento de
Jesus, Deus se revelou pessoalmente; o invisível tornou-se visível e o
incognoscível fez-se conhecer numa fúlgida manifestação da glória de Deus.
Mas, é necessário não se esquecer de que, todo aquele que se aproxima dos
evangelhos num nível de investigação puramente histórica, que faz de Cristo
o objeto de suas pesquisas, perguntas e análises, ignora um outro elemento
fundamental na aproximação desse livro. Os evangelistas escreveram seus
textos mantendo o olhar fixo em Cristo como Senhor e Deus, que os olhos de
seu coração contemplavam como vivente. Deste modo, o evangelho tomou forma
em suas mãos: não como uma descrição meticulosa de um determinado
acontecimento que teve como protagonista um homem chamado Jesus, mas - pelo
contrário - como testemunho de uma realidade viva que tinha tocado seus
olhos e coração (a realidade do Senhor Jesus Cristo, o Filho do Deus vivente
que enchera seu ser, seus sentimentos e sua fé) e que tinham registrado na
memória com absoluta fidelidade e precisão. Assim, estavam em condições de
demonstrar aos crentes que Jesus, o Cristo vivente que ressuscitara dos
mortos na glória, sem dúvida alguma era Deus; exatamente ele, o mesmo Jesus
que nascera em Belém, vivera em Nazaré, pregara na Galiléia e fora
crucificado em Jerusalém.
Os
Evangelhos são livros de fé
É indispensável que o leitor dos evangelhos coloque diante de seus olhos
esta realidade vivente, antes de mergulhar na mensagem contida naqueles
textos: desta maneira a história se transfigurará diante dele. Os
evangelhos, antes de serem livros de história, são livros de fé! Por isso, a
fé na pessoa de Jesus Cristo revela todos os mistérios do evangelho e
resolve todos os problemas históricos postos por uma narração escrita há
dois mil anos. Constatamos assim, e o podemos constatar diariamente, que o
evangelho é revelado com maior profundidade, graça e discernimento aos
corações simples que possuem uma fé firme.
O evangelho, porém, não revela a verdade como uma hipótese global que deva
ser aceita ou refutada em bloco. Pelo contrário, dirige-se a cada coração de
modo específico e pessoal, a cada ser humano revelando a verdade num modo
adequado à sua estatura espiritual, ao nível de sua fé, ao seu grau de
aceitação da verdade, num fluxo contínuo de revelação que cresce com o
crescer da fé e com o passar do tempo.
É oportuno que o leitor do evangelho se aproxime da verdade nele contida na
ótica e no espírito do evangelista, de modo a receber as palavras do
Espírito nele contidas. Não é nossa intenção tornar mais árdua a missão do
leitor: pelo contrário, estamos oferecendo a chave de leitura do mistério do
evangelho. Se o leitor obedece ao Espírito do evangelho, empenha-se em
aceitá-lo e submete a própria mente à verdade, a verdade se transfigurará
diante dele, tornando-se igual àquela contemplada pelo evangelista. Assim, o
leitor será investido do sopro do Espírito do evangelho e de seu fluir
inefável, que o levarão com a mente e o coração diretamente da palavra ao
face a face com a pessoa de Jesus Cristo.
Deste modo se realiza o milagre do evangelho: Então abriu-lhes a mente à
inteligência das Escrituras (Lc 24,45). Aqui a história é transfigurada e
Cristo é manifestado como Deus pelo testemunho do Espírito em nossos
corações.
Partindo desse ponto (da atenção à mente do evangelista e de uma livre
submissão ao Espírito Santo que dirige as palavras e lhes confere forma),
nos encaminhamos à indispensável atenção às palavras do próprio Cristo, por
ele pronunciadas e reiteradas com calma e firmeza: da pura e simples atenção
do coração por essas palavras, nós podemos perceber a pessoa do próprio
Cristo. Em cada palavra e em cada frase, Cristo realmente se pronunciava a
si mesmo!
Cada vez que temos o ouvido atento à sua proclamação da relação que o liga
com Deus, tornamo-nos conscientes, de modo certo e seguro, do mistério de
sua eterna qualidade de Filho de Deus. Ouçamos sua voz: O meu Pai que está
nos céus (Mt 7,21; 10,32; 12,50; 18, 10.19; etc.), O meu Pai celeste o fará
(Mt 18,35), Eu devo ficar na casa de meu Pai (Lc 2,49), O meu Pai trabalha
sempre e eu também trabalho (Jo 5,17), Meu Pai que mas deu (Jo 10,29),
Fiz-vos ver muitas boas obras da parte de meu Pai (Jo 10,32), Eu sou a
videira verdadeira e meu Pai é o agricultor (Jo 15,1), Abbá, Pai (Mc 14,36).
Aqui podemos perceber - absolutamente sem dificuldade - que a relação entre
Cristo e Deus é eterna e ultrapassa sua condição humana, e que
indubitavelmente existia antes de seu nascimento em Belém.
As palavras dos evangelistas revelam de per si grandeza de ânimo, mas deixam
transparecer - com evidência extrema - que a magnanimidade de quem as
pronunciou é ainda maior. O alcance teológico evidenciado pelos termos
usados é sério e profundo, mas o leitor ou o ouvinte não tem nenhuma
dificuldade para perceber que a mente que os elaborou e pronunciou possui
uma profundidade e uma seriedade ainda maiores. A audácia da expressão nos
trechos citados ultrapassa qualquer compreensão, mas trata-se de uma audácia
confiante e humilde que leva a lógica à aceitação, sem esforço, de que
Cristo não está dizendo outra coisa que a verdade, manifestando-se a si
mesmo com autoridade, sem fingimento algum. Realmente, o Cristo que fala no
evangelho fala de si mesmo, da verdade, de Deus! Cristo é a Palavra de Deus!
Cristo imprimiu fortemente na mente de seus discípulos esta verdade (a sua
eterna qualidade de Filho de Deus) de tal modo que todos pudessem nela
colher o mistério de sua ligação pessoal com o Pai, mistério que deveria
revelar-se como o caminho que nEle nos faz mais próximos de Deus, Pai também
nosso.
Cristo e
a revelação do Reino
Cristo também insiste num outro fato de extrema importância: a manifestação
do reino de Deus e a relação que este possui com a sua vinda em nosso mundo.
Cristo iniciou sua pregação dirigindo ao mundo estas palavras:
Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo! (Mt 4,17), e com elas
referia-se a si mesmo. Durante sua vida terrena, empenhou-se em salientar
com força que o reino de Deus já tinha iniciado, já tinha vindo, era
iminente. Ele proclamou que a sua vinda ao mundo era a inauguração do tempo
do reino de Deus, e indicou com sua encarnação e nascimento o autêntico
ingresso da humanidade na esfera do reino de Deus. Isso significa, portanto,
o ingresso de todos aqueles que estão nele unidos pela fé, como salientaram
os anjos na noite de seu nascimento: Glória a Deus no mais alto dos céus e
paz na terra aos homens que ele ama! (Lc 2,14). A iniciação da terra e do
homem na esfera do reino e da paz de Deus, aqui significa a irrupção do
reino de Deus no mundo dos homens.
Cristo continuará a insistir nisso até o dia de sua crucificação, quando
estava diante de Pilatos: Pilatos lhe disse: Então tu és rei? Respondeu
Jesus: Tu o dizes: Eu sou rei. Para isso nasci e para isto vim ao mundo (Jo
18,37).
Somente quando nos recordamos de que ele estava diante de Pilatos é que nós
percebemos a gravidade e a enormidade da acusação legalmente levantada por
Pilatos contra ele para crucificá-lo, porque tinha declarado: Eu sou rei.
Não nos esqueçamos de que Cristo afirmou a sua qualidade real tendo diante
de si a cruz, enquanto os soldados se apressavam em crucificá-lo e já estava
cheio e preparado o cálice da amargura! Como podemos esquecer o dorso nu, o
chicote para a flagelação, a cabeça açoitada e suja de cuspe? Diante de tudo
isso estava Jesus: ouvimo-lo ainda repetir: Eu sou rei. Para isso nasci e
para isso vim ao mundo! E agora, por um instante fechemos os olhos, de novo
imaginemos esta cena e escutemos atentamente para ouvi-lo pronunciar a
solene declaração com sua voz firme. Neste ponto, um sentimento de fé nos
invade e nos permite compreender que ele é verdadeiramente o Filho de Deus e
que o seu reino é um reino eterno, que jamais será derrotado e que não é
deste mundo. Se o reino de Deus entrou em nosso mundo através do nascimento
de Cristo, é graças à sua morte que entramos no reino de Deus nos céus.
Voltemos agora ao nosso ponto de partida: estamos novamente em Belém, numa
humilde casa alugada por José após o nascimento de Jesus. Maria está
sentada, tendo ao colo o menino Jesus, com quase dois anos. É tarde, e a
escuridão cobre a casa e a cidade. Imprevisivelmente aparece uma luz
semelhante ao clarão de um relâmpago que inunda o campo e a casa. José
precipita-se para fora e vê uma estrela extraordinariamente luminosa que
parou exatamente sobre a casa, como se quisesse assinalar com seus raios o
lugar onde se encontra o menino. José logo percebe que a estrela indica uma
revelação; mal tinha entrado em casa para dizê-lo a Maria e ouve um grande
tumulto na rua e à entrada da casa. Sai e vê uma cena singular: uma caravana
de camelos enfeitados com muitos bordados é conduzida por um grupo de
servidores e transporta alguns homens idosos, cujo aspecto revela uma
condição elevada e rica: são príncipes orientais. Descem e suas faces
irradiam alegria e simpatia, apesar do cansaço da longa viagem. Dão um passo
em frente e perguntam a José: “Está em casa um menino de quase dois anos?
Foi anunciado pelo céu, sua mãe é uma virgem e dele falaram os profetas!”
Com um sinal, José pede silêncio e com pressa os conduz para dentro de casa,
onde estão o menino e sua mãe. Com grande espanto vê o rosto do menino
resplandecer como se um raio da estrela tivesse atravessado a parede e
pousasse em sua face; a mãe é envolvida pela luz, como se os céus se
tivessem aberto.
Os magos, homens sábios, prostram-se e ficam diante do menino, cantando uma
doce melodia, com uma incrível veneração, enquanto que suas faces irradiam
alegria e doces lágrimas escorrem por suas barbas brancas, fazendo-as
resplandecer de luz.
Depois se aproximam do menino, cada príncipe tendo à mão um presente. O
primeiro se prostra e abre o cofre: ouro trabalhado, semelhante àquele com
que se ornamentam as coroas reais. O segundo se ajoelha e tem às mãos uma
caixa de incenso de delicioso perfume: espalha-o nas mãos do menino, que
assim aparece como um sacerdote que traz uma mensagem. Chega depois o
terceiro, e também ele se prostra: tem em mãos uma enorme quantidade de
mirra, como aquela usada para o Senhor no dia de sua sepultura; talvez seja
a mesma, por ele conservada com cuidado, para o dia de sua paixão!
Não posso não maravilhar-me com esses magos e por seus presentes, e ainda
mais com aquele que os enviou, guiando-os até Belém!
Ainda uma vez estamos diante do Espírito que fala, mas sem servir-se de
palavras. O ouro nas mãos dos magos nada mais é do que dinheiro, riqueza,
bom augúrio ou presente, mas segundo o Espírito é um ato de coroação real,
com a qual o menino era coroado desde o berço, para que fosse sempre
reconhecida a verdadeira realeza de Cristo. Não o tínhamos escutado dizer
diante de Pilatos: Eu sou rei. Para isso nasci e para isso vim ao mundo (Jo
18,37)?
O evangelho e seu conteúdo me inspiram temor: sua conclusão se orienta para
iluminar o início, e este dirige a própria luz, viva e penetrante, até a
conclusão da narração.
Assim, o Espírito sopra entre as linhas e as palavras e atravessa os
capítulos. Felizes aqueles que seguem o Espírito para caminhar na luz: a
eles é revelado o mistério de Cristo.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen. |