IX - Quaresma: o
Arrependimento
O arrependimento é uma segunda vitória da fé
e um novo testemunho.
humanidade alegrou-se com os primórdios da fé e foi reavivada pelo
martírio como selo da fé: agora espera ainda uma época de arrependimento que
será uma das eras espirituais mais florescentes e não menos alegre e
produtiva em comparação com as épocas precedentes, isso, com a condição de
que o arrependimento seja vivido autenticamente.
O arrependimento não é outra coisa que uma segunda vitória da fé e um novo
testemunho. O retorno à fé acolhida anteriormente é uma alegria quase maior
do que a primeira adesão. Pensai na viúva depois que encontrou a dracma
perdida (Lc 15,8-10); pensai no pastor que se alegrava mais por ter
reencontrado a sua ovelha perdida do que pela certeza de possuir as outras
99 no redil (Lc 15,4-7). O Senhor nos ensina que o retorno ao seio de Cristo
por um homem que se arrepende, possui uma força e uma honra iguais à alegria
de ter um redil completo, isto é, uma igreja inteira.
Deus quis dar ao arrependimento uma dupla honra, de felicidade, de gáudio e
de alegria, de modo que um pecador não seja desencorajado ou temeroso de
retornar aos braços de Cristo, para que a glória da cruz possa prevalecer
sobre a infâmia do pecado e que a mansidão de Deus, sempre disposta a
justificar o ímpio, fosse glorificada. Mesmo que um pecador que se
penitencia dificilmente possa ser notado pelo mundo, a Bíblia afirma que o
céu inteiro acolhe com alegria o arrependimento de um pecador e se alegra
quando um homem é justificado. O arrependimento é a maior das obras de que a
humanidade possa se glorificar pois, quem se arrepende, está respondendo ao
poder de Deus de perdoar e de justificar e obtém, mediante a contrição, o
fruto da cruz e a santificação da parte de Deus. Pensai: um homem que se
arrepende pode, com a sua contrição, alegrar os céus e o coração de Deus!
Quando os santos perceberam a honra reservada ao arrependimento e à
contrição - honra originalmente reservada aos pecadores, aos adúlteros e aos
indolentes -, choraram por si mesmos e se submeteram com seriedade e
capricho à severa disciplina do arrependimento, como se eles fossem os
indolentes: assim o povo passou a pensar que o arrependimento fosse obra dos
santos e a contrição, dos justos!
Quanto a nós, miseráveis, julgamos ser a nossa justiça a introduzir-nos
junto de Deus e que a nossa virtude, a erudição, o culto, o zelo nos
garantem a comunhão com as coisas celestes. Não percebemos que tudo está nu
e descoberto aos seus olhos e a ele devemos prestar contas (Hb 4,13), que
não temos nada de bom para nos aproximarmos de Deus: Ninguém é justo, nem um
só (Rm 3,10), e que como pano imundo são todos os nossos atos de justiça (Is
64,5).
Se apenas soubéssemos que Cristo veio para justificar o ímpio (Rm 4,5) e
para chamar de minha amada aquela que não era amada (Rm 9,25); se apenas
estivéssemos seguros disso, renunciaríamos, imediatamente, a toda a nossa
justiça, a toda a nossa falsa piedade, a toda ostentação forçada e, no mesmo
instante, as abandonaríamos como coisas ímpias e não julgaríamos os nossos
pecados como demasiadamente grandes para serem lavados pelo sangue de Cristo
e a nossa impureza como uma carga demais pesada para o seu amor.
Não é nossa função justificar os ímpios, nem podemos fazê-lo: essa é uma
ação divina, uma capacidade sobrenatural que permanece incompreensível para
nós. É a riqueza do céu que foi derramada com o sangue de Cristo em nossos
corações; é a riqueza do dom e da generosidade total; é a benevolência de
Deus unida a uma compaixão e amor superabundantes, a ponto de se superar e
não ter piedade de si mesmo, mas se imolou na cruz em favor da miséria dos
pecadores.
Justificar o ímpio é um ministério divino, um dos mais profundos mistérios
da salvação. Seria suficiente, para nós, acreditar que Deus é capaz de
justificar o ímpio: essa nossa fé seria considerada justiça por si mesma,
sem levar em conta que nos tenhamos aproximado de Deus como pessoas ímpias,
convictas de dever ser justificadas em virtude do poder de Deus de
justificar e santificar; se isso acontecesse, nos aprofundaríamos
imediatamente no incompreensível mistério de salvação.
Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores! Sim, o pecador! O
pecador nada mais é do que um monte de imundícia unida à luxúria, malvadeza,
vaidade e à dolorosa experiência da dissolução. Exatamente o pecador,
repugnante a si mesmo e aos outros, é o motivo da vinda de Cristo ao mundo.
O pecador que, por causa do pecado, sente dentro de si a falta absoluta da
luz da vida e da comunhão dos santos, exatamente ele é o amigo que Jesus
convidou à mesa e que foi procurar ao longo dos caminhos; é ele o amigo ao
qual foi pedido ser convidado às núpcias de Cristo e o herdeiro de Deus.
Deus prometeu-lhe não recordar nenhum de seus pecados, mas deixá-los cair no
esquecimento, do mesmo modo que uma nuvem de verão é absorvida pelo
esplendor do sol. Por acaso, não foi por ele que Cristo crucificou-se a si
mesmo e suportou a miséria e o abandono?
O maravilhoso poder de Cristo, Deus que redime e ama até a morte,
absolutamente não pode ser percebido ou experimentado se não na pessoa do
pecador prostrado por terra e repudiado por todos. Sem o pecador, não temos
condições de compreender o amor de Cristo, calcular sua profundidade e nem
esse amor divino pode manifestar-se numa ação que revele a qualidade
extraordinária dele.
O amor divino alcança o máximo valor aos nossos olhos quando conseguimos
conhecê-lo em sua bondade para conosco no momento em que afundamos numa
condição miserável.
Por amor ao pecador foram revelados os mistérios do amor de Deus e foi-nos
aberta a riqueza de Cristo, riqueza oferecida gratuitamente - nem ouro nem
prata podem adquiri-la. Como é grandiosa a pobreza do pecador! Somente a
extrema miséria do pecador faz jorrar, de fato, a riqueza de Cristo, com uma
confiança semelhante àquela de uma criança faminta que suga o leite do peito
da mãe.
Cristo jamais enriquece quem é rico, mata a fome de quem está saciado,
justifica quem é justo, redime quem confia em si mesmo, ensina a um erudito!
Sua riqueza é somente para o pobre e o necessitado, para quem foi rejeitado,
é desprezível e derrotado aos próprios olhos; o alimento abundante de Cristo
é para o faminto, sua justiça para os pecadores, seu braço forte para quem
caiu, sua sabedoria para as crianças e para quantos se consideram pequenos.
Todo aquele que é pobre, faminto, pecador, caído ou ignorante é hóspede de
Cristo.
Cristo desceu da glória de seu reino à procura daqueles que estão no abismo
profundo, que atingiram o grau máximo de miséria, de perdição e de
obscuridade abominável, daqueles que não têm mais esperança em si mesmos.
Neles se manifesta o seu poder de ação e a potência do seu ser Deus quando
seu amor imolado se precipita para libertar o pecador do pântano e do
esterco e se apressa em aspergir e lavar com o divino sangue todo membro
contaminado. Em pessoas desse tipo é glorificada a justiça de Deus; nelas
encontra-se um terreno para a compaixão, a misericórdia e a ternura, e nas
almas daqueles que são desprezados e descartados a sua humildade encontra
conforto pois, no ser condescendente para com eles, encontra uma obra digna
de sua mansidão.
Ó, se ao menos os pecadores soubessem ser a obra de Deus e a alegria de seu
coração! Somos obra de suas mãos (Ef 2,10). Se o pecador estivesse seguro de
que a sua condição aos olhos de Deus sempre esteve entre as preocupações do
Onipotente e foi levada em conta desde a eternidade, e que a mente divina no
curso dos séculos se preocupou com o seu retorno, e que os céus e tudo o que
contêm estão à espera de sua conversão, jamais se envergonharia de si mesmo,
nem desprezaria a própria possibilidade de conversão, nem retardaria sua
volta.
Se o pecador ao menos soubesse que todas as suas transgressões, culpas e
enfermidades nada mais são do que o motivo da compaixão, da remissão e do
perdão de Deus e que, por maiores e atrozes que possam ser, jamais poderão
entristecer o coração de Deus, extinguir-lhe a misericórdia, impedir - nem
mesmo por um instante - o seu amor! Se o pecador apenas soubesse isso,
jamais se agarraria a seu pecado ou procuraria, no isolamento de Deus, um
véu para impedir sua vergonha de contemplar a face de Cristo, face que está
procurando demonstrar-lhe o amor que nutre por ele e que o está chamando!
O pecado
não tem mais o poder de separar o homem de Deus.
Pois bem,
justifiquemo-nos, diz o Senhor.
Se vossos pecados forem escarlates,
tornar-se-ão brancos como a neve!
Se forem vermelhos como a púrpura,
ficarão brancos como a lã!
(Is 1,18)
Deus é assim, sempre condescendente conosco; ele sabe como o pecado
enfraquece o coração do pecador e o prostra num estado de vergonha mortal,
constrangendo-o não a procurar Deus, mas a esconder-se, privando-se assim da
vida; por isso, Deus mesmo toma a iniciativa de insistentemente chamar o
pecador e convidá-lo para juntos discutirem.
O pecador pensa que o pecado o impede de procurar Deus, mas é exatamente
para isso que Cristo desceu à procura do homem! Por acaso Deus não assumiu a
carne do homem para curar-lhe a doença, para redimi-lo do pecado que reinava
sobre ele e para fazê-lo ressurgir da maldição da morte? O pecado não tem
mais o poder de separar o pecador de Deus depois que ele enviou seu Filho e
pagou o preço - o preço total do resgate - na cruz. É o temor do pecador,
sua vergonha e o seu engano que esconde o lado traspassado de Cristo, no
qual o mundo inteiro pôde encontrar purificação muitas vezes!
O pecado não mais tem o direito de existir ou de permanecer em nossa nova
natureza: é como uma mancha numa veste, imediatamente lavada, em menos de um
piscar de olho, quando o pecador se arrepende e busca a face de Deus.
O pecador não deve procurar qualquer poder autônomo ou algum outro mediador
senão o sangue de Cristo para chegar a Deus e encontrar redenção e perdão
pois, de outra forma, arriscaria insultar o amor de Deus e sua suprema
misericórdia, ou desonrar sua onipotência, sua benevolência ou compaixão. Em
todo caso, o pecador pode encontrar auxílio em todos os santos e penitentes
da Igreja. Vimos, ouvimos e testemunhamos que a profundidade do perdão de
Deus, sua imensa remissão, seu poder de santificar alcançam o máximo poder e
grandeza quando quem se arrepende toca o fundo da própria fraqueza.
Existe, também, um pecador falso, que pinta-se a si mesmo como um grande
pecador e narra a todos seus inumeráveis pecados, mas dentro de si não os
percebe como reais e não provocam nele nenhum tormento ou remorso de
consciência. Para uma pessoa assim não existe arrependimento, nem mesmo se
cumprisse milhares de obras ou recitasse milhares de preces diariamente:
Cristo é um médico experiente, sabe distinguir um verdadeiro paciente de um
que pretende sê-lo. Cristo não veio apenas com a água para lavar as sujeiras
do corpo, mas com água e sangue para lavar, antes de tudo, as feridas
sangrando pelo pecado que dilaceraram o coração e a consciência de toda a
humanidade, para depois revigorar o corpo com doses de seu sangue
vivificante, de forma a poder recuperar-se de sua fraqueza mortal, erguer-se
e viver.
Quando o profeta Isaías define nossos pecados vermelhos como a púrpura, na
realidade se refere ao sangramento do pecado que tinge a vida do homem com a
cor da morte. Sangrar sempre joga o homem num estado de desespero e terror,
como um apunhalado no coração ou como um assassino com as mãos gotejantes de
sangue; são exatamente os responsáveis por semelhantes pecados, pessoas com
a consciência ensangüentada, pesada, afligida e desesperada que Isaías
convida a conhecer as profundidades do perdão e da misericórdia de Deus.
Para esses, Cristo desceu de junto do Pai, para chamá-los à colina do
Calvário. Contemplai-o enquanto abre os braços na cruz para revelar a
magnanimidade de seu coração que busca aqueles que se perderam e expulsa o
desconforto do coração desesperado.
Cristo veio procurar os verdadeiros pecadores, mergulhados na compunção do
remorso e do desespero, e não escuta os mentirosos que se proclamam
pecadores e se autocondenam diante dos outros, para procurar maior prestígio
graças à sua humildade: esses serão elogiados como penitentes, mas na
realidade não o são.
Cristo veio para oferecer a liberdade aos prisioneiros, indo procurá-los nas
trevas de cavernas ocultas; mas, se não tomaste consciência da escravidão do
pecado, de tua escuridão, se ainda não abriste os olhos a seu horror
terrificante, como podes olhar nas profundezas? E se não gritas por socorro,
como pode o Salvador ouvir tua voz e, como faz, para saber onde estás?
Cristo veio para dar vista aos cegos. Mas, se não descobriste a cegueira de
teu coração e não te sentes privado da luz divina, se procuraste abrir os
olhos dos outros enquanto tu mesmo estás cego, como pode Cristo fazer-te o
dom da vista, e como pode chegar para entregar-te a luz?
A essência do arrependimento é a consciência do pecado, o grito de dor pelo
crime e a certeza da ausência de luz.
O
arrependimento consiste em cair nos braços de Deus
Existe em mim o desejo do bem,
mas não a capacidade de realizá-lo.
(Rm 7,18)
Há um terrível obstáculo que impediu a muitos de dar o passo para o
arrependimento. Permanece no limiar do arrependimento o pecador que apela à
sua vontade, mas não encontra matéria para dar início a uma obra boa que
seja: então ele se compara com aqueles que obtiveram misericórdia e perdão,
perde a coragem e mergulha num grande desconforto e tristeza, considerando o
arrependimento como um dever demasiado cansativo. Isto é cilada do
Adversário! Quem disse que o arrependimento consiste em apelar à vontade,
num ato de coragem ou de força, na realização de algum empreendimento? Pelo
contrário, o arrependimento não é o cair nos braços de Deus, atirar-se a
seus pés sem mais uma vontade própria, com o coração ferido que sangra de
tristeza e os membros destruídos pelo pecado e não têm mais força de se
reerguer a não ser pela misericórdia de Deus?
Cristo comparou aquele que se arrepende, a um estrangeiro que caiu nas mãos
de assaltantes num país estranho. Eles arrancam-lhe as vestes, lançam-no por
terra, o humilham e ferem, deixando-o mais morto do que vivo. Quem se
arrepende, é como um homem despido da veste de honra pelo demônio; sua
vontade é desnudada e seus membros contaminados. O diabo lhe rouba seu
tesouro, que consiste na saúde da mente, na luz interior e na voz da
consciência: deste modo sua pessoa é humilhada, sua queda posta à luz, sua
vontade despedaçada. Por último, o diabo o fere em profundidade com a
ansiedade de morrer o mais rápido possível: e deste modo, finalmente,
deixa-o na posse de apenas um corpo morto, incapaz de viver. Por isso, o bom
samaritano não tem possibilidade de fazer-lhe perguntas ou de admoestá-lo:
toma-o imediatamente nos braços.
O bom samaritano da parábola (Lc 10,30-37) é Cristo, e nossa interpretação é
extraída exatamente do sinal: Cristo não reprova quem se arrepende, não lhe
pede que faça algum gesto, mas vai-lhe pessoalmente ao encontro no local
onde caiu, curva-se sobre ele com afeto, lava e enfaixa a ferida dele com a
própria ferida, estanca o derramamento de sangue com o derramamento de seu
sangue, derrama sobre ele o óleo da sua compaixão e da sua vida,
transporta-o nos braços de sua misericórdia, oferece-lhe um transporte até a
hospedaria de sua Igreja, pede a seus anjos que o sirvam e gastem sua graça
com ele até a cura.
Esse é aquele que se arrepende: um miserável que caiu ao longo da estrada
após ter sido atacado pela opressão do homem e a maldade do demônio, e não
está mais em condições de fazer nada. Depois que as forças o abandonaram,
encontra refúgio na casa do Compassivo, encontra refúgio em seu coração,
entre seus braços, em sua montaria e no seu reino.
Cristo
arrancou o pecado das vísceras do homem
Os filhos se apresentam
à saída do seio materno,
mas não há força para dar à luz.
(Is 37, 3b)
Essa situação, descrita por Isaías, é também a condição do pecador quando
está no limiar do arrependimento, numa luta desesperada pela salvação e por
uma vida nova. De fato, quando passa a contemplar o passado que o arruinou,
chora, e quando deseja o futuro que o espera, desanima, pois se apercebe de
que a falta de forças invadiu todo o seu ser e de que não é mais capaz de
sair da lama, prisioneiro que é de sua fraqueza. O pecado é como a doença
que faz secar as plantas: uma vez tendo atacado uma, não a abandona até que
as trevas da morte a cerquem por todo lado. Esta é a natureza do pecado que
se difunde por todo o ser do homem para arrancar-lhe o espírito vital.
O pecado não só nos enfraquece, mas também nos mata. Quando Cristo veio,
sabia que estávamos mortos pelas culpas e pelos pecados (Ef 2,1). A pessoa
morta por causa do pecado, já tinha sido concebida na iniqüidade e, depois
de algum tempo, o tormento da morte abateu-se sobre ele. O nascimento no
pecado é uma condenação e uma verdadeira morte que o pecador descobre em si.
Mas, Cristo arrancou o pecado das vísceras do pecador e deste modo
resgatou-nos de uma morte inevitável. Ele ocupou o posto do pecado nas
profundidades de nosso ser e tomou corpo em nossa mais oculta intimidade.
Foi renovada a criatura que nós somos: depois que a morte dominou sobre nós,
agora em nós reina a vida, e o tormento da morte foi substituído pela
alegria da vida e da libertação. Cristo submeteu-se à morte para salvar-nos
de uma morte semelhante, e prossegue ainda sua obra de salvação. É deveras
inacreditável que um homem justo possa morrer em lugar de um pecador, mas
Deus não é como o homem. Tudo o que é inacreditável e impossível, Deus o
realiza quando demonstra seu amor por nós, morrendo por nós enquanto ainda
éramos pecadores (Rm 5,8).
Por isso, o pecado do pecador, sua extrema ignomínia devida àquele pecado
latente em seu íntimo, o odor de morte que invade o seu ser por causa da
iniqüidade da vida precedente, tudo isso foi medido por Deus em seu profundo
amor e encontrou uma saída na vinda do Filho de Deus na carne da Virgem;
vinda que fez nascer do seio de Maria um fruto de vida no lugar do fruto de
pecado, concebido pelo homem.
Ao invés da falta de forças, própria do tormento da morte, de que Isaías
fala como de alguma coisa inevitável para o homem, Deus serviu-se do ventre
da Virgem com o seu poder infinito, de modo que viesse à luz um homem. Mas,
que nascimento: este homem nasceu de Deus!
Ao pecador é pedido ter confiança na obra realizada por Cristo através do
nascimento e da cruz, realizadas por causa do pecado, da absoluta falta de
forças e da morte de uma pessoa. Outra coisa não se pede ao pecador senão
estender a mão como a hemorroísa (cf. Lc 8,43) e tocar o manto do Salvador.
Então tomará consciência de como o poder do Senhor vem-lhe ao encontro, para
nele morar. O fluxo de sangue pára, a fraqueza se torna força e a morte foge
diante da vida!
Por acaso, não estenderás tua mão para receber uma parte desta força e
deixar de ser fraco ou morto? Recorda-te disso quando, durante a Semana
Santa, exclamas com o coro dos fiéis: Minha força e meu canto é o Senhor,
ele me salvou (Ex 15,2; Sl 118,14).
Se queres saber como o poder de Deus pode se derramar em ti, recorda-te de
Jericó: seus muros não desabaram sob os golpes das espadas ou da guerra, mas
ao grito de vitória no nome do Senhor. Lembra-te, também, de como o Jordão
se abriu sob os pés dos sacerdotes. Este mesmo poder do Senhor está sempre à
disposição do fraco e do aflito, de quem está perturbado ou oprimido.
Não sabes, não ouviste?
O Senhor é o Deus de sempre,
ele cria as extremidades da terra,
ele não enfraquece, ele não se fatiga;
não há meio algum de sondar a sua inteligência;
ele dá energia ao fraco,
ele aumenta a resistência de quem
está sem forças.
Eles enfraquecem, os jovens,
eles se fatigam,
mesmo os homens de elite tropeçam.
Mas os que esperam no Senhor
retemperam a sua energia:
tomam a envergadura das águias,
lançam-se e não se fatigam,
avançam e não fraquejam.
(Is 40, 28-31)
Não
existe alternativa além do socorro que vem do alto.
Tu me lançaste no abismo no coração dos mares
onde a corrente me envolve;
todas as tuas vagas e tuas ondas
abatem-se sobre mim.
Por mais que eu diga: Estou expulso
de diante de teus olhos,
contudo continuo olhando para o teu santo Templo.
As águas me chegam à garganta,
enquanto as vagas do abismo me envolvem:
as algas se entrelaçam em torno de minha cabeça.
Desci às bases das montanhas;
para sempre as trancas da terra - da Morte -
se fecharam sobre mim.
Mas tu me fizeste sair vivo do fosso,
ó Senhor, meu Deus!
Enquanto meu fôlego está no fim,
eu me lembro e digo: Senhor!
E minha oração chega a ti,
em teu santo Templo.
(Jn 2,4-8)
Essa é a situação de tantos que estão dilacerados por pensamentos de remorso
por causa de seus pecados, mas permanecem desconfiados em relação à
misericórdia de Deus: estão derrotados como um corpo que se afoga, levado
embora por um rio de idéias e de fantasias desesperadas; cada vez que
procuram reemergir para respirar o sopro da vida, violentas ondas de
escuridão mental os submergem e arremessam-nos para longe de sua esperança.
Assim, sua alma é destruída sempre mais por preocupações sem fim: é como se
o desespero começasse a oprimi-los como um caos oprimente, no qual tristes
pensamentos pessimistas chovessem de todo lado. Dúvida, angústia e aflição
envolvem suas mentes como a alga marinha envolve o pescoço do afogado,
obstaculando-lhe os movimentos, de modo a não mais poder existir salvação.
É uma guerra amarga para o pecador, que se afoga nos tormentos por seus
muitos pecados. Quando pensa na salvação, os demônios das trevas se insurgem
para a vingança. Nenhuma lucidez, nenhum raciocínio, nenhuma leitura, nenhum
conselho de homens sábios pode auxiliar o pecador, pois se trata de uma
guerra mental, e a mente se encontra na desgraça da prisão. Não há nenhuma
alternativa ao socorro que desce do alto, além da razão, lá do alto, do Deus
que habita no mais alto dos céus: Quando meu fôlego estava no fim, eu me
lembrei do Senhor (Jn 2,8).
Àqueles que se arrependem mesmo nas tribulações, anunciamos aquela palavra
de libertação que para eles será uma âncora em que confiar, porque retira a
alma dos abismos da perdição e guia-a no mundo da luz, da esperança e da
paz, no confortável ventre do arrependimento: Todo pecado e toda blasfêmia
será perdoada aos homens (Mt 12,31). Bendito é o Deus vivente que
antecipadamente conheceu e mediu toda tribulação que devemos enfrentar e
toda guerra planejada contra nós. Ele permanece com o ouvido sempre atento
para escutar o primeiro gemido de invocação e de socorro: Minha oração
chegou até junto de ti, em tua santa habitação (Jn 2,8). Que Deus é
semelhante ao nosso Deus, tão próximo à nossa prece, tão atento à nossa
súplica? Para nós, Deus é refúgio e fortaleza, socorro sempre perto nas
angústias (Sl 46,1).
A
confiança em Cristo deve ser perfeita como Cristo
Na angústia que me oprime, eu imploro o Senhor:
ele me responde;
do ventre da Morte suplico socorro:
tu ouves minha voz...
Por mais que eu diga:
estou expulso de diante de teus olhos,
contudo, continuo olhando para teu santo Templo...
Mas tu me fizeste sair vivo do fosso,
ó Senhor, meu Deus!...
Quanto a mim, ao canto de ação de graças
quero oferecer-te sacrifícios,
e cumprir as promessas que faço.
Ao Senhor é que pertence a salvação!
(Jn 2,2-10)
Quando o inimigo nos persegue, tratando-nos como já perdidos por causa de
nossas iniqüidades, lembremo-nos da palavra do Senhor que afirmou ter vindo
para procurar e salvar o que estava perdido. Quando o adversário nos repete
que perdemos a esperança na salvação porque o pecado habita nossas mentes e
nossos corpos, recordemo-nos de que Cristo morreu pelos pecadores: O sangue
de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1Jo 1,7). Quando o
acusador nos repreende, dizendo-nos que nos manchamos gravemente e nos
tornamos pecadores empedernidos, ímpios, familiares do mal, agarremo-nos
então à promessa: Enquanto ainda éramos pecadores, Cristo morreu pelos
ímpios no tempo estabelecido (Rm 5,6).
A lógica de Satanás é sempre uma lógica perversa! Se a racionalidade
desesperadora utilizada por Satanás conclui que, por causa de nosso ser
ímpios e pecadores estamos perdidos, o pensamento de Cristo é que, do mesmo
modo que estamos perdidos por causa do pecado e da impiedade, somos salvos
pelo seu sangue!
Por isso, a confiança em Cristo, da parte do pecador arrependido, jorra com
uma racionalidade que não pode nem ser vencida, nem posta em dúvida. Mas,
esta confiança na capacidade de Cristo de nos salvar da condição do mais
espantoso desconforto, deve ser uma confiança pura e total em sua pessoa,
que não deixa espaço para raciocínios ou discussões com o demônio, que não
dê atenção à fraqueza da vontade e da carne, e que não calcula o estrago nem
o preço a pagar. A confiança em Cristo deve ser perfeita como Cristo, segura
como Cristo, confiante como Cristo.
Se Cristo veio para salvar-nos, então deve salvar-nos! É impossível que não
tenha condições de salvar-nos, porque nossa salvação é obra de Cristo e é
impossível que Cristo more em nós e não opere em nós. O credo de nossa fé
tem origem, e é constituído, no confessar que somos salvos e nos
transformamos naqueles que se arrependem em Cristo, porque nós afirmamos que
Cristo veio para salvar os pecadores. E, a partir do momento em que
confessamos que somos os maiores pecadores, é inevitável que devemos ser as
primícias dos redimidos que se arrependem. Por isso, quando nos arrependemos
a cada dia diante dele, fazemo-lo não como os fortes e os justos, mas como
os fracos e os ímpios.
Cristo veio para procurar o que estava perdido: e eis-nos aqui, nós, os
perdidos que o invocam, os mortos que se rejubilam na sua vida.
Veio
para colocar-se a serviço dos fracos
Tornei-me como um vaso a ser jogado fora.
... O terror me circunda.
(Sl 30, 13-14)
Minha vida não me dá prazer,
não quero viver mais tempo.
(Jó 7,16)
O pecado desagrega a vontade, deturpa a personalidade e dissolve a
consistência da alma: não ficamos mais em condições de resistir à tirania do
vício e à ilusão do pecado.
Realmente, do mesmo modo que o rato apenas surpreendido cai sob as unhas do
gato, assim a força do pecador se dissolve à mínima queda no vício; e do
mesmo modo que o coração do antílope pára à vista do leão e cai morto sob
suas patas, assim o pecador se entrega aos maus pensamentos.
Sempre que decide resistir, cai, sempre que promete não repetir o erro o
repete, perdendo a confiança em si mesmo. Sua capacidade de fazer o bem
chega a tal ponto que ele próprio se olha com escárnio, como se olha um vaso
quebrado que deve ser jogado fora. Sua esperança em Deus esvai-se e toda a
sua resistência neste sentido se dissolve e torna-se como uma pulga afastada
pelo vento, como alguém que não tem esperança no mundo.
É assim que, muitas vezes, o inimigo se agarra à alma e a acorrenta com o
medo - medo do próprio pecado - e a arrasta como quer, de um pecado para
outro. A alma, incapaz de apresentar qualquer objeção, agora o segue com uma
vontade órfã, com uma honra decaída, com sentimentos feridos e com uma
consciência perturbada, privada tanto da força para erguer-se quanto do
prazer de cair.
Ah, pobre alma! não te lembras de tua primeira criação e daquela de teu
Criador? Formou-te à sua imagem em coragem, verdade, santidade e justiça.
Mas, conhece Deus, verdadeiramente, o que acontece com o pecador aprisionado
em semelhante pena e angústia? Para ter uma resposta a esta interrogação,
ouçamos Cristo que diz: O Espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt
26,41). Mulher... ninguém te condenou?... Nem eu te condeno, vai e de agora
em diante não peques mais (Jo 8, 10-11). Queres ser curado? (Jo 5,6).
Nossa fraqueza e nossa miséria eram conhecidas de Cristo desde a eternidade,
e ele veio pessoalmente colocar-se a serviço dos pecadores débeis e
derrotados. Colocou o seu Espírito Santo como guarda de suas almas,
trabalhando dia e noite para expulsar o terror e o medo dos corações dos
pecadores, e transformar-lhes o coração em sua morada.
A personalidade que foi desagregada pelo pecado é recomposta pelo Espírito;
a alma que foi humilhada pelo demônio - que riu da autoridade dela e
anulou-lhe a vontade - é agora tocada pela graça de Cristo e,
conseqüentemente, é feita ressurgir, é renovada e revigorada.
Um único olhar a Cristo fez Pedro superar a própria fraqueza e derrota
sofrida diante de servos e domésticas, fê-lo retomar coragem e readquirir a
vontade, que se tinha quebrado como um vaso de argila, a ponto de sua alma
dissolver-se diante da ameaça. No olhar de Cristo, Pedro encontrou a força
do arrependimento, graças ao qual recuperou a própria integridade.
Cristo continua a andar em meio aos pecadores, curando toda fraqueza e toda
enfermidade da alma. O Espírito Santo está sempre pronto a inundar quem
vacila com a força que vem do alto. A graça está presente a cada dia, para
oferecer firmeza às mãos trêmulas e aos joelhos cansados. E o amor de
Cristo, quando arde num peito contrito, transforma o coração de um covarde
no coração de um mártir. Quantas vezes o arrependimento transformou a
fraqueza, a derrota e a rendição, em testemunho que afirma e proclama a
verdade do evangelho! A recordação dos horrores precedentes da alma, de seu
desespero e falência, se transformam em testemunho da misericórdia de
Cristo. O terror como força motriz do pecado e do vício, se dissolve em
fumaça, e a submissão servil à tentação da companhia do mal se torna
vigilância e proclamação.
Deste modo, o pecador estoura a imagem de corrupção e é revestido da nova
imagem pela mão de Cristo. Assim, o fraco, o covarde, o tímido, o derrotado
e aquele que não tem nenhum domínio sobre si escutam da boca do Onipotente a
promessa: E eis que eu faço de ti como uma fortaleza, como um muro de
bronze... Ninguém poderá resistir-te por todos os dias da tua vida... Não te
deixarei, nem te abandonarei. Sê corajoso e forte (Jr 1,18; Js 1, 5-6).
A força
do arrependimento consiste na luta incessantepara obter o Espírito de vida
em Jesus Cristo
Sinto, porém, nos meus membros, outra lei,
que luta contra a lei do meu espírito
e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros.
Homem infeliz que sou!
(Rm 7,23-24
O cão voltou ao seu vômito
e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal.
(2Pd 2,22)
Quando despertarei eu?
Quero mais vinho!
(Prov 23,35)
Uma grande ansiedade e uma viva preocupação tomam conta da alma quando esta
descobre a obstinação, a teimosia, a arrogância e a insolência do pecado; um
vômito de tristeza misturado com um angustiante desespero brota na alma
quando ela descobre, após repetidas provas, a inutilidade dos juramentos,
promessas, obras de penitência, remorso e lágrimas; nada disso serve a
alguma coisa: o que conta é a lei de santidade esculpida pela mão de Deus no
coração de cada um, a qual chama incessantemente o profundo da alma: não
existe consolação nem repouso a não ser na castidade, e não existe alegria
nem paz a não ser na renúncia ao pecado! Qualquer desvio dessa lei provoca,
imediatamente, um grave conflito com a consciência, uma oposição à própria
vida, um desacordo com o Espírito, uma alienação da finalidade da criação,
um enfraquecimento nas trevas do pensamento, uma falta de equilíbrio no
julgar a natureza das coisas, uma rebelião no confronto com a verdade e,
conseqüentemente, um contraste com o Autor da lei.
E então acontece que o homem - aprisionado num louco entusiasmo - começa
imprudentemente a bater-se diretamente com o pecado. Mas, que dor quando
descobre o quanto ele mesmo está mutilado e como o pecado é tirânico! Levado
à exasperação pelo entusiasmo, repete a tentativa e permanece profundamente
agitado pela descoberta de que o espectro de Satanás está ali, encarnado
atrás do pecado e escondido nos órgãos dos quais se apossou, e domina nas
faculdades da alma e nos movimentos da carne de modo profundo e organizado;
tudo foi calculado há muito tempo, a ponto de ter deitado raízes e tornado
lei. Ao final - sim, exatamente no fim - após ter esgotado todos os seus
esforços e ter utilizado todas as suas astúcias e idéias, o homem descobre
que é mais fácil conservar a água num lenço, recolher o vento na palma da
mão ou subir a pé até os céus do que controlar a lei do pecado com a própria
vontade, ou exercitar o domínio sobre as potências do mal que se agitam nas
profundezas de seus membros.
É neste ponto que intervém a ação de Cristo; somente ele condenou o pecado
na carne! Pois a lei do Espírito que dá a vida em Cristo Jesus me libertou
da lei do pecado e da morte (Rm 8,2).
A força do arrependimento consiste na luta incessante para obter o Espírito
de vida em Jesus Cristo, lá onde a carne deve ser resgatada da lei do pecado
por meio da graça. Do momento em que possuímos a graça, podemos lutar até o
sangue contra o pecado, seguros de que, em virtude da força da graça,
seremos mais do que vencedores: Sei em quem acreditei! (2Tm 1,12).
Finalidade do arrependimento não é que nós sejamos justificados diante de
Deus através do remorso e da repressão exterior do pecado mediante atos de
penitência e de mortificação da carne; pelo contrário, finalidade do
arrependimento é que nós sejamos santificados interiormente pelo Espírito de
Cristo - para que seja destruído o corpo do pecado (Rm 6,6) - e libertado do
próprio pecado na profundeza da consciência, que o poder e o medo do pecado
desapareçam e que a graça possa ser guia dos impulsos da consciência, possa
freiar as ações da carne, controlar o insurgir dos pensamentos, disciplinar
a ascese, misturar-se com a austeridade e tornar doce a dor.
Não é simplesmente o perdão do pecado a ação completa da graça no homem, nem
tampouco exata é a finalidade última da fé em Cristo; a finalidade do
arrependimento e da fé é, pelo contrário, a destruição do pecado em nossos
membros, o fim da existência de seu poder, o desaparecimento de sua lei em
nossa natureza; e tudo isso pertence ao poder soberano da graça. Vós sabeis
que (Cristo) apareceu para tirar os pecados (1Jo 3,5).
Na cruz, Cristo teve o lado trespassado para derramar água e sangue sobre
todos aqueles que nele crêem e o procuram: água para lavar a impureza do
pecado, e sangue para eliminar o poder do pecado.
É verdadeiramente bendito o dia em que o lado de Jesus foi trespassado na
cruz para que ali o pecador encontrasse a própria justiça, a própria
santidade e a própria redenção.
*Publicação em ECCLESIA autorizada pelo Tradutor, Pe. José Artulino Besen. |